O acorde perdido


Acorde perdido

     Hoje em dia a pergunta feita muitas vezes é: “Porque é que eu sinto tão pouco gozo no Senhor?” A pergunta às vezes traz-nos lembranças tristes, porque houve um tempo (não é verdade?) quando à alma não era estranho esse gozo. Naqueles dias passados o coração estava cheio do amor de Cristo. Quão precioso Ele era naquela época! Que prazer havia na oração e na comunhão com Ele na Palavra.
 

     Mas algo aconteceu. Onde antes lindas flores cresciam, agora parece haver somente ervas daninhas. Sons desafinados tomaram o lugar da melodia celestial. O gozo, a doçura, a comunhão dantes experimentada agora são uma mera lembrança.

     Conta-se a história de uma senhora que se sentou perante um magnífico órgão passando os seus dedos nas teclas. Ela fez um acorde que tocou profundamente no seu ser com a sua melodia majestosa. Mas quando ela tentou fazê-lo de novo, não conseguiu. Ela tentou por muito tempo, mas em vão! Para ela era um acorde perdido!

      Será que somos como aqueles cujas vidas perderam a música? Lembram-se daquele acorde de gozo que antes vibrava dentro do vosso ser? Onde está agora? Onde está então a bem-aventurança da qual falávamos? Desapareceu. A melodia cessou. O acorde de gozo celestial é para nós “O acorde perdido”.

     A pergunta é, pode ser recuperado? E como? O que é que eu devo fazer para que a minha vida seja inundada novamente com alegria, e o meu coração cheio de gozo?

     ” ... o fruto do Espírito é: ... gozo ...” (Gál. 5:22).

     “... não entristeçais o Espírito Santo de Deus ...” (Efé. 4:30).

     “...sei que disto me resultará salvação, ... pelo socorro do Espírito ...” (Fil. 1:19).


AUTO-OCUPAÇÃO

     O que mais atrapalha na restauração da alegria que perdemos por causa da nossa frieza e recaída é a nossa ocupação connosco. Por alguma forma de auto-cultura religiosa, tentamos melhorar o que não pode ser melhorado. Mesmo produzindo alegria, vitória sobre o pecado ou serviço, o nosso objecto é uma forma subtil desta coisa terrível — auto-ocupação.

     É bom “lembrarmo-nos dos dias antigos”, examinarmos os nossos caminhos e julgarmo-nos a nós mesmos sem misericórdia. Mas isto em si mesmo nunca pode trazer de volta o gozo.

     Uma vez um escritor entrou numa sala onde uma pequena menina estava a tocar no piano uma melodia simples. Evidentemente confusa pela presença de uma visita, ela começou a tocar muitas notas erradas. Depois, tirando os olhos da música à sua frente, ela começou a olhar para os seus dedos, e tentava colocá-los nas notas certas. Sem dúvida, os erros tornaram-se piores do que antes, e de repente ela começou a chorar, tendo deixado de tocar.

     Olhar para os próprios dedos foi a pior coisa que ela poderia ter feito. Se ela se tivesse permanecido com os olhos fitos na música à sua frente, ela poderia ter corrigido os erros e continuado a tocar.

     Então, se nós nos ocupamos connosco, com as nossas falhas, a nossa frieza e falta de poder, certamente falharemos. Esse não é o caminho da recuperação. Mas, enquanto verdadeiramente nos julgamos pelo descuido e loucura, se olhamos para Cristo, e procuramos a Sua presença, isso tocará no acorde que foi perdido, e a música retornará à alma.

     Nisso teremos a ajuda graciosa e poderosa do Espírito Santo. Tirando o nosso olhar de nós mesmos e olhando para Cristo, e tendo Ele perante as nossas mentes, faremos o oposto do entristecer o Espírito Santo. De facto, Agradamos-Lhe.

     Uma pequena coisa pode entristecê-lo. Um pouco de indiferença à Sua direcção para o que Ele quer que gozemos, um pouco de falta de atenção ao Seu ministério de amor. Por outro lado, algo pequeno pode trazer-Lhe gozo. Um pequeno desejo de conhecer mais de Cristo, um pequeno desejo de ser melhor instruído nos propósitos de Deus. Isso agradará muito ao Espírito Santo, e garantirá o Seu socorro pronto e amoroso.


O ACORDE RECUPERADO

     Se a senhora sentada ao órgão, tentando em vão colocar os seus dedos nas notas que tinha tocado, pudesse ter encontrado um ajudante sábio e gracioso, talvez achasse novamente o acorde perdido. Suponhamos que uma mão habilidosa fosse posta em cima da mão dela, colocando os seus dedos nas notas certas, que diferença teria sido!

     Existe Alguém que pode fazer isto por nós, e é o Espírito Santo. O que temos que resolver é se nós vamos permitir que Ele tenha a Sua vontade graciosa connosco nesse assunto.

     Uma vez um estranho entrou na grande catedral de Freiburg e pediu permissão para tocar no seu órgão mundialmente famoso. O organista responsável, a princípio, recusou. Mas, depois de muita insistência e talvez com uma gratificação, ele foi persuadido a deixar que o estranho tocasse, e ele sentou-se ao órgão.

     Os seus dedos trouxeram a música mais maravilhosa. O organista ficou admirado e estupefacto. No final ele virou-se para o estranho e disse: “Posso saber qual é o seu nome, senhor?”. “Mendelssohn”, respondeu. Ele era, de facto o grande compositor em pessoa. “E eu, proibindo que ele usasse o órgão”, pensou o organista humilhado.

     Assim como Mendelssohn quis tocar o órgão em Freiburg, o Espírito Santo deseja produzir música nos nossos corações e vidas. Infelizmente, quantas vezes Ele encontra uma recusa! Quantas vezes nós O estorvamos! Quantos de nós, quando olhamos para trás, exclamamos com tristeza com as palavras do organista: “Só de pensar que eu recusei dar-Te permissão”.

     Despertemos do nosso sono. Busquemos graça para tirar tudo o que impede o Espírito Santo de ter o controlo total sobre nós. Deixemos de entristecê-lo por falta de atenção ao Seu ministério, e indiferentes Àquele que deseja fazer o melhor nos nossos corações, o Senhor Jesus.

     Sendo assim Ele poderá encher-nos novamente de gozo. Mais uma vez será nosso o privilégio de beber as águas doces da comunhão, e sentiremos de novo nas nossas vidas e testemunho, o poder que faltava. A oração tornará a ser um prazer e um grande privilégio. Sentiremos gozo ao estudarmos as Escrituras e os nossos olhos abrir-se-ão para ver coisas maravilhosas nas páginas Sagradas.


H. P. Barker

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