Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLVII – Atos 27:1-44 (7)

Acts dispensationally considered

 

A ÚLTIMA NOITE PAVOROSA

 

     “Quando chegou a décima quarta noite, sendo impelidos de uma e outra banda no mar Adriático,[1] lá pela meia-noite, suspeitaram os marinheiros que estavam próximos de alguma terra.

     “E, lançando o prumo, acharam vinte braças; passando um pouco mais adiante, tornando a lançar o prumo, acharam quinze braças.

     “E, temendo ir dar em alguns rochedos, lançaram da popa quatro âncoras, desejando que viesse o dia.

     “Procurando, porém, os marinheiros fugir do navio e tendo já deitado o batel ao mar, como que querendo lançar as âncoras pela proa,

     “Disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos.

     “Então, os soldados cortaram os cabos do batel e o deixaram cair.”

- Atos 27:27-32.

     Mas ainda havia mais ansiedade para suportar, já que o navio maltratado foi “impelido de uma e outra banda no mar Adriático”. Esta cláusula, no versículo 27, não visa indicar que o curso deles não era razoavelmente contínuo. Vimos que a embarcação seguia o mais diretamente possível para o vento nordeste, com o lado de estibordo voltado para o vento e a vela, ou velas, abertas de modo que ele continuasse a derivar à popa, mas sempre direcionado a norte. De acordo com a velocidade da ventania subia e descia, portanto, o navio era “impelido de uma e outra banda”, embora numa direção geral de cerca de 8 graus a noroeste.

     E agora, na décima quarta noite dessa violenta tempestade, o sentido prático dos marinheiros dizia-lhes que “alguma terra se estava a aproximar”[2], ou pelo som das ondas na costa, ou pelo vislumbre de uma fosforescente brancura a piscar.

     De dia, tal descoberta poderia ter sido bem-vinda, mas, numa noite escura como breu, numa tempestade extrema, a súbita perceção de que estavam perto terra não era nada reconfortante.

     Rapidamente, lançaram o prumo e descobriram que a profundidade era de vinte braças e, um pouco mais adiante, quinze braças. Isso significava que ações imediatas teriam que ser tomadas para evitar que fossem empurrados para as rochas. Quatro âncoras tinham que ser largadas da popa de uma só vez (Ver. 29).

     Mas porque a partir da popa e não da proa, o lugar mais comum? Nunca houve acordo quanto à razão disto.

     Parece que a maioria dos comentaristas sustenta que a o navio provavelmente foi ancorado a partir da popa, para que ele não se virasse e batesse em lugares agrestes ou rochosos, e também para que, pela manhã, pudesse estar em posição de os marinheiros o ancorarem e o desembarque pudesse ser mais fácil.

     Parece-nos, no entanto, que a maioria dos comentadores “seguiu a opinião líder” aqui, não levando em consideração vários fatores importantes.

     Primeiro, é de modo geral aceite que a terra que o navio agora se aproximava era a ilha de Melita, ou Malta (Cf. 28:1) ao lugar que se tornou na Baía de São Paulo. Esta baía está localizada no lado nordeste da ilha e o leitor lembrará que o navio também estava posicionado nessa direção geral, para o vento nordeste e, portanto, afastado da costa.

     Concluímos, portanto, que os marinheiros lançaram âncoras da popa para que o navio se virasse para enfrentar a costa. Em tal vendaval, a primeira âncora teria, é claro, afetado esse resultado e, depois, mais três teriam sido lançadas para garantir que aquela não escorregasse. Quinze, ou mesmo dez braças[3] de água sem dúvida teriam oferecido muita profundidade para efetuar essa manobra.

     Mas, mesmo tendo feito isso, a posição deles ainda era perigosa. As âncoras podem ceder, pois quem sabia a que se estavam elas a segurar? E mesmo que se segurassem, vagas de popa poderiam cobrir o navio afundando-o ou, enfraquecido como estava, o próprio facto de que as âncoras o seguravam contra o vendaval poderia fazê-lo desintegrar-se. Não é de admirar que, tendo feito tudo o que podiam, estivessem “desejando que viesse o dia” (Ver. 29).

     É evidente que os marinheiros não esperavam que o navio sobrevivesse, pois na escuridão daquela noite tempestuosa eles engendraram um plano desesperado que era totalmente indigno das suas tradições e responsabilidades.

     Desceram o batel, lançando[4] deliberadamente as âncoras pela proa a fim de soltá-las ali para estabilizar o navio. Na verdade, porém, eles planeavam usar o batel (evidentemente grande o suficiente para conter todos) para abandonar o navio e os seus passageiros.

     Porém Paulo, suspeitando do seu propósito, tomou medidas imediatas para interceptá-lo. Como poderia a difícil manobra de encalhar o navio ser efetuada sem a tripulação?

     Com a lucidez e a presença de espírito tão características nele,[5] o apóstolo proferiu simplesmente umas breves palavras às pessoas certas e o plano cobarde foi frustrado.

     Se ele tivesse protestado com os próprios marinheiros, eles poderiam ter escapado apesar das suas palavras. Ele falou então “ao centurião e aos soldados”, e revelou a sabedoria dada por Deus na abordagem que lhes fez. Levando em consideração o instinto humano de autopreservação, ele disse: “Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos” (Ver. 31).

     O resultado foi instantâneo. Sem mais discussão, os soldados cortaram os cabos, deixaram o batel cair à água e outra crise foi ultrapassada.

     É digna de ser observada a ascendência moral de Paulo nesta viagem. Para começar, ele foi autorizado a levar o grupo de dois assistentes, e o centurião tratou-o com afeição amável. Depois, em Bons  Portos, apesar de o centurião (que tinha autoridade final a bordo) acabar por não aceitar o seu conselho, é significativo que este conselho tenha sido ouvido e pesado contra o do “piloto” e do “mestre” do navio. Mas como, por meio de experiências medonhas, todos eles aprenderam a verdade e a sabedoria do seu aviso, a sua influência cresceu cada vez mais, até ele, passageiro e prisioneiro, poder erguer-se e dirigir-se a todos a bordo reanimando-os para nova esperança e coragem, podendo proferir um aviso ao centurião e aos seus soldados que teve o efeito prático de uma ordem.

     Muitas palavras foram desperdiçadas em relação à chamada contradição entre os versículos 22 e 31. O simples facto, porém, é que a resposta à advertência do versículo 31 não tornou a previsão do versículo 22 falsa, pois os marinheiros permaneceram no navio e todos foram salvos. De facto, a promessa de Deus no versículo 22 foi realizada quando os marinheiros “encalharam ali o navio”. Assim, a sua ação estava incluída na sua previsão. Isto confirma um princípio que observamos tanto nas Escrituras como na experiência humana: a agência humana está profundamente envolvida no cumprimento dos propósitos soberanos de Deus.

 

[1] Esta designação incluía então não só o Mar Adriático, mas também a parte do Mediterrâneo situado a sul do mesmo.

 

[2] Esta é a tradução literal e expressa novamente o ponto de vista do marinheiro, para quem o navio é o centro de tudo. A terra é que se aproxima.

[3] Uma braça, aproximadamente seis pés, ou cerca de 1,80 m.

[4] O termo traduzido por “lançar” no Versículo 30 não é o mesmo que o usado no Versículo 29. Significa literalmente “estender”.

[5] Paulo é provavelmente o primeiro exemplo bíblico (excetuando o próprio Cristo) daquilo que ele incita o seu filho Timóteo a fazer: “instes a tempo e fora de tempo” (2 Timóteo 4:2).

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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