Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLVII – Atos 27:1-44 (4)

Acts dispensationally considered

 

DIFICULDADES À FRENTE

 

     “E, como por muitos dias navegássemos vagarosamente, havendo chegado apenas defronte de Cnido, não nos permitindo o vento ir mais adiante, navegamos abaixo de Creta, junto de Salmona.

     “E, costeando-a dificilmente, chegamos a um lugar chamado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Laseia.

     “Passado muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, pois também o jejum já tinha passado, Paulo os admoestava,

     “Dizendo-lhes: Varões, vejo que a navegação há de ser incómoda e com muito dano, não só para o navio e a carga, mas também para a nossa vida.

     “Mas o centurião cria mais no piloto e no mestre do que no que dizia Paulo.

     “E, como aquele porto não era cómodo para invernar, os mais deles foram de parecer que se partisse dali para ver se podiam chegar a Fenice, que é um porto de Creta que olha para a banda do vento da África e do Coro, e invernar ali.”

- Atos 27:7-12.

 

     O vento ainda “contrário”, levou o navio a demorar “muitos dias” a cobrir a curta distância de Mirra a Cnido, na costa sudoeste da “Ásia”. E tendo manobrado  “com dificuldade”[1] para trazer o navio “defronte” de Cnido, eles evidentemente não conseguiram entrar no seu porto, “não ... permitindo o vento ir mais adiante” (Ver. 7).

     Alguns supõem que esta última frase refere-se à sua incapacidade de continuar o seu curso para o norte de Creta, mas concluímos que se refere à sua incapacidade de entrar no porto de Cnido, pelas seguintes razões:

  1. O termo “defronte de Cnido”, acoplado como está com “não ... permitindo o vento ir mais adiante”, parece implicar que eles não conseguiram se aproximar mais dele do que podiam.
  2. Eles trouxeram o navio para “defronte” de Cnido só “com dificuldade”. Porque haveriam eles de se esforçar arduamente para se aproximar de Cnido se eles não pretendiam entrar no seu porto?
  3. Depois de lutar contra ventos contrários durante “muitos dias”, seria natural procurar um porto em terra firme.
  4. Cnido era evidentemente uma cidade próspera, com um grande porto, e teria sido tolice, dadas as circunstâncias, passá-lo na esperança de escalar um porto mais pequeno na ilha de Creta.

     Beaufort diz de Cnido: “Poucos lugares apresentam provas mais incontestáveis ​​de magnificência antiga ... Toda a área da cidade é uma massa indiscriminada de ruínas, entre as quais se podem localizar ruas e portais, pórticos e teatros” (Karamania, P. 81). E a isso Howson acrescenta: “Mas o remanescente que é o mais digno de prender a nossa atenção são os portos ... porque esse remanescente foi menos destruído pela violência ou pela decadência” (Vida e Epístolas de São Paulo, p. 694).

     Evidentemente, então, os navegadores teriam entrado no porto em Cnido, se o vento permitisse, mas foram obrigados pela força do vendaval a virar para o sul, esperando contornar o Cabo Salmone, na extremidade leste de Creta, e assim ganhar a proteção da costa do sotavento da ilha (“abaixo”, veja acima).

     Isso eles conseguiram fazer, mas novamente “com dificuldade”, chegando a um lugar chamado “Bons portos”, evidentemente um ancoradouro mais do que um porto, onde poderiam pelo menos ficar ancorados. Um pouco a oeste de Bons Portos ficava o Cabo Matala. Se eles o tivessem circundado, eles teriam novamente sido expostos à força do vendaval. Era necessário, portanto, esperar em  Bons Portos que o vento mudasse.

     “Passado muito tempo", no entanto, esperando em vão por um vento favorável durante tanto tempo era “já perigosa a navegação, pois também o jejum[2] já tinha passado” (Ver. 9). A navegação já havia sido difícil por causa dos inesperados ventos do noroeste, mas mesmo que os ventos mudassem, agora seria perigoso aventurarem-se porque o Equinócio de Outono inaugurava a estação em que não se poderia depender de nenhuma brisa favorável e a navegação era invariavelmente perigosa.

     Como ainda esperavam que o vento mudasse, Paulo “admoestava” os marinheiros para não se aventurarem mais. O apóstolo era agora um viajante e marinheiro veterano. Três vezes ele havia naufragado e numa ocasião ele havia passado “uma noite e um dia” no abismo, sem dúvida agarrado a algum objeto flutuante, por isso ele estava bem familiarizado com os “perigos no mar” (2 Cor. 11.25,26).

     Ele declarou, portanto, que via que aquela viagem, se levada adiante, seria “incómoda” (Lit., violentos estragos) e “muito dano” (ou perda) não apenas para a carga e para o navio, mas também para as suas vidas.

     O facto de o conselho de Paulo ter sido considerado[3] até pelo centurião e pelos responsáveis ​​pelo navio, indica que eles o tinham em alta estima e consideração. Talvez eles também já se tivessem apercebido agora que ele era um viajante de considerável experiência.

     Embora houvesse uma pequena cidade a cerca de 11 quilómetros do seu atual “bom porto”, havia além do Cabo Matala a cidade de Fénix,[4] com um porto bem equipado. Isso ficava a cerca de quarenta quilómetros de distância e esperava-se que, se o vento se tornasse favorável, pudessem escalar esse porto e passar o inverno ali.

     Tanto para o “piloto” (o navegador responsável) quanto para o “mestre” ou dono do navio, parecia valer a pena o risco. Além disso, Paulo não reivindicou nenhuma orientação sobrenatural neste assunto. Ele simplesmente disse que viu o perigo à frente. A sua declaração foi um aviso, não uma previsão.

     O centurião[5], portanto, dificilmente poderia ser culpado porque ele estava convencido pelos marinheiros profissionais a bordo, mesmo que Paulo tenha provado estar certo sobre o assunto. Além disso, “não sendo o porto próprio para invernar”, a maioria da tripulação, ou passageiros, ou ambos (sem dúvida, excluindo os prisioneiros) também insistiam que “partissem dali” e tentassem alcançar Fénix. Eles já haviam sobrevivido a muitos perigos; eles sobreviveriam a este também, esperavam eles, e assim passariam o inverno num ambiente mais aceitável - mas eles estavam errados, com o resultado de que o piloto e o dono perderam a sua embarcação e carga, e todos a bordo provavelmente teriam perdido as suas vidas não tivesse o Senhor prometido a Paulo a sua segurança.

     Há um problema técnico no versículo 12 que deve ser explicado antes de prosseguirmos com nosso estudo da viagem. Dizem que o porto de Fénix “olhava para o nordeste e para o sudeste” [outras versões dizem noroeste e sudoeste]. Primeiro, como poderia estar em duas direções? A resposta é simplesmente que uma ilha jazia na sua boca, de modo que pudesse ser entrado de dois ângulos. Mas, pode-se perguntar ainda, não seria loucura para os marinheiros, já lutando contra os fortes ventos do oeste, buscar refúgio em um porto aberto àqueles ventos? A explicação para esse problema é encontrada quando adotamos o ponto de vista do marinheiro. A passagem não afirma que a boca do porto ficava a noroeste e a sudoeste; simplesmente afirma que o porto estava nessa direção. Ora, o porto jazia a sudoeste e noroeste quando os marinheiros se aproximavam. Um navio teria que virar a sua proa para o sudoeste ou para o noroeste para entrar no porto, dependendo da direção de onde vinha. Assim, a boca do porto, na verdade, ficava voltada para o sudeste e nordeste, protegida dos ventos que lhes haviam causado tantos problemas.[6] Essa é outra razão pela qual o alcance deste porto era tão desejado.

 

[1] Nas versões TB e RA [Nota do tradutor]. Não “apenas”. A mesma palavra é traduzida por “dificilmente” no Ver. 8, mas em ambos os casos é melhor traduzida por “com dificuldade”.

[2] Sem dúvida que do Dia da Expiação (Levítico 16:29), que acontecia cerca de 1 de outubro.

[3] Nós não vemos, como alguns supõem ver, qualquer evidência de um conselho formal do navio em que Paulo tivesse sido convidado a participar. Foi obviamente Paulo quem tomou a iniciativa na matéria (Ver verso 9).

[4] Identificada como a moderna Lutro.

[5] Parece que ele tinha autoridade final na matéria. Isto reforça o ponto de vista de que ele pertenceria à da Guarda Pretoriana.

[6] A versão que usamos traduz esta passagem: “olhava para o nordeste e para o sudeste” e alguns dão como uma interpretação alternativa: “pelo vento sudoeste e pelo vento noroeste”. Embora essas duas interpretações sejam, sem dúvida, interpretações corretas do ponto de vista lavrador, elas ainda são interpretações e não, até onde podemos constatar, representações fiéis do texto. Deixando o texto como está, a passagem é explicada simplesmente como acima.

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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