Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLVII – Atos 27:1-44 (2)

Acts dispensationally considered

 

O SIGNIFICADO DISPENSACIONAL DA VIAGEM

 

     Nós temos aprendido há muito nestes estudos que Atos é mais do que um livro de histórias espirituais. Como qualquer outro livro do Novo Testamento, ele tem uma linha distinta de ensino. Além disso, apresentando como faz, a transição do programa do reino para o atual, tem um peculiar e importante significado dispensacional.

Lucas não foi inspirado a entrar em tal detalhes e a enfatizar esta viagem a Roma apenas para nos fornecer uma narrativa emocionante e dramática.

     Paulo era um viajante experiente e já havia enfrentado perigos muitos graves; entre eles, “perigos no mar” (2 Coríntios 11:26). De facto, alguns anos antes desta viagem, ele já tinha podido escrever: “... três vezes sofri naufrágio; uma noite e um dia passei no abismo” (2 Coríntios 11:25). Todavia esta viagem a Roma tinha um significado dispensacional peculiar, e portanto havia que destacá-la.

     Paulo tinha ido a Jerusalém, entre outras razões, “para dar testemunho do Evangelho da graça de Deus”, mas havia achado a nação endurecida na sua rejeição de Cristo, e os crentes ali mais longe do que nunca de um verdadeiro entendimento da graça (21:20). E agora, pela última vez, ele deixa seus compatriotas para trás para ir a Roma, como “prisioneiro de Jesus Cristo [pelos] Gentios”.

     Porém, a sua partida como prisioneiro não significa, de forma alguma, que ele se tenha retirado do palco da história caindo no esquecimento. Pelo contrário, ele está mais do que nunca determinado a ocupar o centro do palco. O plano de Deus gira em torno dele enquanto, entretanto, Israel e o Judaísmo são deixados para trás e o mundo assoma à vista.

     A sua grande mensagem já tinha sido proclamada por toda parte. Ele já tinha escrito cartas para estabelecer os santos na graça. E agora, de Roma, ele enviará mais cartas, contendo verdades que têm sido corretamente chamadas de “a pedra angular da revelação divina”, e que conduzirão a Igreja às bênçãos da plena graça total.

     Assim, a partida de Paulo de Jerusalém para Roma é significativa da transferência da bênção de Deus de Israel para os Gentios. Logo, o ministério do apóstolo não será mais “primeiro ao Judeu”. Quando ele chegar a Roma, ele dirá aos líderes Judeus que “a salvação de Deus foi[1] enviada aos Gentios” (28:28). O Gentio deve agora ocupar o lugar proeminente no propósito de Deus, pois mais Gentios do que Judeus adoram o Deus de Israel e o Seu Cristo.

     Aqueles que encontram dificuldade em reconciliar isto com a doutrina do um só corpo devem observar que, apesar de graça abundante ser oferecida igualmente a Judeus e Gentios e de os méritos de Cristo crucificado se aplicarem igualmente a ambos (Rom. 10:12) e apesar de os Judeus e os Gentios que creem serem de facto reconciliados com Deus em um só corpo pela cruz (Efésios 2:16), ainda assim, na prática, esta é uma dispensação Gentílica, pela simples razão de Israel, como nação, ter rejeitado a Cristo e de os Judeus crentes no Corpo formarem uma minoria muito pequena. É por isso que a obra de Deus hoje é chamada: “este mistério entre os Gentios”[2] (Col. 1:27).

     Além disso, como Atos é a história da queda de Israel, não é estranho descobrir que esta viagem também ensine uma lição figurativa dispensacional, pois sinais, parábolas e figuras sempre tiveram significado na história de Israel.

     Assim, a passagem descreve a viagem da Igreja[3] através da presente dispensação, pois deixa o Judaísmo para trás. O mar simboliza as multidões não salvas (Isaías 57:20); o vento contrário, o antagonismo de Satanás[4] (Efésios 2: 2). O navio fica finalmente destruído, mas todos os que navegam com Paulo são trazidos seguros até à costa (Ver. 44).

     Paulo é a figura proeminente a bordo do navio. Ele dá conselhos quanto à viagem (Vers. 9,10) e quando tal é rejeitado e resulta em problemas, ele repreende-os dizendo: “Fora, na verdade, razoável, ó varões, ter-me ouvido a mim” (Ver. 21). É ele que encoraja os seus companheiros de viagem, quando, por revelação divina, declara que todos os que navegam com ele sobreviverão à tempestade (Vers. 24,25) e é ele que os persuade a finalmente comer e preside à ação de graças (vers. 34-36).

     Estas lições dispensacionais devem ser levadas em conta quando estudamos o relato da viagem do apóstolo a Roma.

 


[1] É este o sentido correto.

[2] O cumprimento da profecia entre os Gentios espera a conversão de Israel (Veja Zac. 8:13; Rom. 15:8-10; etc.)

[3] A Igreja professa, na qual, nesta presente dispensação, estão os membros do Corpo de Cristo.

[4] Assim “repreendeu” nosso Senhor o vento (Mar. 4:39). Na passagem diante de nós o vento está sempre contra eles, exceto uma vez, quando este os engana (Ver. 13,14).

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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