Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLIV – Atos 24:1-27 (5)

Acts dispensationally considered

 

PAULO DIANTE DE FÉLIX E DRUSILA

 

     “Alguns dias depois, vindo Félix com sua mulher Drusila, que era judia, mandou chamar a Paulo e ouviu-o acerca da fé em Cristo.

     “E, tratando ele da justiça, e da temperança, e do Juízo vindouro, Félix, espavorido, respondeu: Por agora, vai-te, e, em tendo oportunidade, te chamarei;

     “Esperando, ao mesmo tempo, que Paulo lhe desse dinheiro, para que o soltasse; pelo que também, muitas vezes, o mandava chamar e falava com ele.

     “Mas, passados dois anos, Félix teve por sucessor a Pórcio Festo; e, querendo Félix comprazer aos Judeus, deixou a Paulo preso.”

- Atos 24:24-27

 

     Será observado que o texto diz que “Alguns dias depois, vindo Félix com sua mulher Drusila”. Literalmente, o termo é “tendo chegado”.

     Isto harmoniza com relatos históricos que indicam que foi nessa altura que o ímpio Félix, com a ajuda de Simão, um mágico de Chipre,[1] conseguiu seduzir a bela Drusila afastando-a de Azizo, rei de Emesa, com quem ela tinha casado uns seis anos antes, com 14 anos de idade. Agora, com cerca de vinte anos, ela já tinha um passado infame. Ela era filha de Herodes Agripa I (de Atos 12), a irmã de Herodes Agripa II (de Atos 26), sendo uma menininha quando o seu pai aceitou a adoração como deus e foi subitamente fulminado com a morte (Atos 12:22,23).

     Esta Drusila era “judia” (Ver. 24) e, após sua “chegada” a Félix, estaria naturalmente interessada no caso de Paulo. Ela sem dúvida tinha ouvido falar dele desde a infância e se interrogaria sobre a razão de ele se ter voltado tão de repente para o Cristo que ele e a sua nação haviam desprezado e rejeitado, e porque ele agora O servia com tanta paixão. De qualquer forma, na chegada de Félix com Drusila, aquele mandou chamar Paulo e ouviu-o,[2] não a respeito das acusações feitas recentemente contra ele, mas “acerca da fé em Cristo” (Ver. 24).

     Quase todas as circunstâncias agora tinham sido amplamente alteradas. Isto não era um julgamento, mas uma entrevista privada com dois miseráveis, exaltados mas culpados, e foi solene responsabilidade de Paulo testemunhar perante eles de modo a que as suas almas pudessem, se possível, ser resgatadas da morte. E quem pode deixar de admirar tanto a coragem moral quanto o tato com que o apóstolo lidou com essa responsabilidade?

     Dirigindo-se a uma pessoa que, humanamente falando, tinha o poder de o libertar, Paulo começou a falar da justiça, que Félix habitualmente ignorava, da temperança (ou domínio próprio) que ele deixara de exercer, e do Juízo vindouro, de que não havia escapatória nem recurso.

     O apóstolo poderia ter usado uma abordagem diferente, com certeza, talvez ganhando Félix como amigo da sua causa e ganhando a sua própria liberdade, mas Paulo era um homem bem diferente dos seus acusadores, que “[percorreriam] o mar e a terra para fazer um prosélito”. (Mat. 23:15) Ele havia declarado que era seu objetivo “sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (Ver. 16) e agora ele estava a provar isso. Félix - e Drusila – tinham necessidade de regeneração, e isso nunca poderia ser o resultado de persuasões amigáveis ​​em relação aos méritos da “causa” que ele representava. Ele tem que alcançar as suas consciências; ele tem que mostrar-lhes a sua culpa, o seu perigo, a sua necessidade. E isso o apóstolo fez, até Félix ficar aterrorizado.[3]

     No entanto, o apóstolo fez tudo isto de uma maneira tão diplomática que o governador não teve motivo para ficar ofendido.[4] Embora Félix fosse culpado dos pecados mais vis e dos crimes mais negros, incluindo assassinatos particulares e massacres públicos, o apóstolo não o acusou nem o censurou. Ele deixaria que o Espírito e a sua própria consciência fizessem isso. Em vez disso, ele falou da “justiça” - no abstrato; a natureza da justiça, as exigências da justiça, a justiça relacionada com o nosso próximo e com Deus - e a infinita e essencial justiça de Deus. Depois ele prosseguiu abordando um assunto que se segue em sequência natural e lógica: a “temperança” que o homem é obrigado a exercer face às exigências da justiça. Embora o governador culpado soubesse pouco de temperança (ou, domínio próprio, autocontrolo), dificilmente poderia ofender-se, pois esses assuntos eram livremente discutidos em todas as escolas de filosofia. No entanto, a verdade foi incomodativa à sua consciência quando ele foi, talvez pela primeira vez, confrontado com o seu pecado.

     Mas o apóstolo, para ser fiel, tem que ir além disto. Ele tem que mostrar a Félix e à sua amante Judia a urgência da sua necessidade. Assim, ele prosseguiu com um assunto não discutido pelos filósofos da época, mas apenas referido nas Escrituras Hebraicas: o “Juízo vindouro”. Félix já havia tido conhecimento das convicções do apóstolo a respeito disso, pois a sua declaração de que haveria “uma ressurreição ... assim dos justos como dos injustos” (Ver. 15) transportava a implicação direta de que os ressuscitados seriam chamados a prestar contas diante de Deus. Mas agora o apóstolo enfatizou esta verdade, sem dúvida citando passagens das Sagradas Escrituras, até o governador ficar tão alarmado que de repente interrompeu a entrevista, dizendo: “Por agora, vai-te, e, em tendo oportunidade, te chamarei”.

     Alguns concluíram desatentamente que Paulo estava a pregar aqui a verdade do “reino”, que esse discurso não era compatível com “o Evangelho da graça de Deus”. Mas tal olvida o facto de que temos aqui outro dos discursos interrompidos do Livro dos Atos. O que Paulo dissera formava a introdução ao Evangelho da graça de Deus, pois ainda hoje, nenhum homem proclama verdadeiramente a graça se a não proclamar no contexto da justa ira de Deus contra o pecado. Qualquer pessoa que questione isto deve considerar, em oração, passagens como Efé. 2:1-10 e os primeiros capítulos de Romanos.

     Paulo esperava que, tendo mostrado a Félix a sua necessidade, agora poderia mostrar-lhe a provisão graciosa de Deus para essa necessidade, mas o governador não quis ouvir mais nada. Aqui ele está em forte contraste com o carcereiro de Filipos que, tremendo também, perguntou: “Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?” (Atos 16:29,30) com o resultado de que ele foi gloriosamente salvo. Mas Félix, tremendo, mandou embora o homem de Deus, prometendo ouvi-lo ainda mais quando tivesse oportunidade. Nisso ele teve multidões de seguidores que, convencidos pelo Espírito dos seus pecados e necessidade, resistiram em vez de cederem, esperando por outra oportunidade.

     A profundidade da depravação humana é vista no facto de que, embora Félix não tenha chamado Paulo de novo, muitas vezes ele fê-lo na esperança de que lhe fosse oferecido um suborno para libertar Paulo. Assim ele endureceu a sua consciência. À medida que o miserável chama cada vez mais por Paulo e comunga com ele, quase podemos ouvi-lo a subtilmente insinuar, prometer, ameaçar - mas tudo sem sucesso. Paulo não se rebaixaria a meios tão desonrosos para obter a sua libertação, nem permitiria que os seus queridos amigos fizessem isso por ele.

     E assim dois longos anos passaram lentamente com Paulo ainda sob custódia em Cesareia. No entanto, as longas horas, com a desilusão do atraso, devem ter sido grandemente encurtadas pelas visitas refrigerantes de Filipe e dos irmãos em Cesareia. Talvez, também, Lucas ainda estivesse próximo, juntamente com Aristarco (Atos 24:4; cf. 27:2). Depois também deve ter havido muitos crentes Hebreus na vizinhança que mostraram compaixão por ele nas suas prisões (Heb. 10:34).

     Assim, Deus cuidou de Paulo, dando-lhe oportunidade de comunhão, oração, meditação na Palavra e descanso. No entanto, embora não tenhamos registo de nenhum convertido ganho em Cesareia, ou de uma única carta que ele tivesse escrito de lá, é inconcebível que ele tenha permanecido especialmente desocupado durante dois anos inteiros. Sem dúvida, ele continuou um vasto ministério o tempo todo.

     Depois de dois anos, em que Félix conversou com o apóstolo muitas vezes, ele continuava tão sem escrúpulos como sempre. Ao ser substituído por Porcius Festus, ele ainda deixou Paulo preso, embora fosse costume em tais ocasiões libertar prisioneiros não condenados. Ele fez isso “querendo comprazer aos Judeus” (embora os odiasse completamente) pois, se a história estiver correta, ele teria sido chamado por Nero por má administração do seu governo, e precisaria muito de ganhar a amizade Judaica. Assim, ele sacrificou a liberdade de um inocente no altar do seu próprio egoísmo. Ele não foi o primeiro governador provincial Romano a satisfazer os cidadãos da turbulenta Judeia. A pedido deles Pilatos entregou Jesus nas suas mãos (Lucas 23:22-24). Herodes Agripa I tinha matado o apóstolo Tiago e “vendo que isso agradara aos Judeus, continuou, mandando prender também a Pedro” (Atos 12:1-3). Félix deixa aqui Paulo preso para ganhar o favor dos Judeus (24:27) e num curto espaço de tempo o seu sucessor, Festo, procurará da mesma forma sacrificar os legítimos interesses de Paulo em troca do favor dos Judeus (25:9).


[1] Suposto por alguns ser o Simão Mago de Atos 8.

[2] Parece clara a implicação de que Félix, com Drusila agora presente, ouviu Paulo.

[3] Gr., emphobos.

[4] A sabedoria dada por Deus a Paulo para falar a indivíduos e audiências tão diversas em caráter e contexto, num tão vasto ministério, daria um estudo em si.

       

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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