Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLIV – Atos 24:1-27 (2)

Acts dispensationally considered

 

A DEFESA DE PAULO

     “Paulo, porém, fazendo-lhe o governador sinal que falasse, respondeu: Porque sei que já vai para muitos anos que desta nação és juiz, com tanto melhor ânimo respondo por mim.

     “Pois bem podes saber que não há mais de doze dias que subi a Jerusalém a adorar;

      “E não me acharam no templo falando com alguém, nem amotinando o povo nas sinagogas, nem na cidade;

     “Nem tampouco podem provar as coisas de que agora me acusam.

     “Mas confesso-te que, conforme aquele Caminho, a que chamam seita, assim sirvo ao Deus de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na Lei e nos Profetas.

     “Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, de que há de haver ressurreição de mortos, tanto dos justos como dos injustos.

     “E, por isso, procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens.

     “Ora, muitos anos depois, vim trazer à minha nação esmolas e ofertas.

     “Nisto, me acharam já santificado no templo, não em ajuntamentos, nem com alvoroços, uns certos judeus da Ásia,

     “Os quais convinha que estivessem presentes perante ti e me acusassem, se alguma coisa contra mim tivessem.

     “Ou digam estes mesmos se acharam em mim alguma iniquidade, quando compareci perante o conselho,

     “A não ser estas palavras que, estando entre eles, clamei: hoje, sou julgado por vós acerca da ressurreição dos mortos!”

- Atos 24:10-21.

     A maneira simples e digna com que Paulo abriu a sua defesa diante de Félix destaca-se em nítido contraste com o discurso bajulador falso e servil de Tértulo. Tendo recebido o sinal do governador para apresentar a sua contestação, o apóstolo começou por dizer, com simplicidade e verdade, que lhe agradava ser ouvido por alguém cuja ocupação excepcionalmente longa na Judeia lhe dava muita experiência nas suas investigações.

     Do mesmo modo, quando lidou com todas as acusações feitas contra ele, a argumentação do apóstolo baseou-se apenas em factos simples, lógica simples e na justiça da sua causa.

     Primeiro, havia um facto básico que Félix poderia facilmente “verificar”[1] por si. Fazia então apenas doze dias desde que Paulo tinha vindo a Jerusalém. Isto, como Félix sabia, era o começo da Festa de Pentecostes, e ajudaria a estabelecer o seu argumento de que ele viera “a adorar” (Ver. 11). Sob a persuasão de Tiago, ele havia, é claro, sido envolvido mais profundamente no Judaísmo do que pretendia, porém a questão agora era se ele era ou não culpado das acusações de sedição, heresia e sacrilégio

     É verdade que o tempo da festa poderia ter sido escolhido como um momento oportuno para provocar a sedição, mas ele efetivamente descarta tal possibilidade salientando que eles não o acharam em disputa ou a agitar as pessoas, fosse no templo, fosse nas sinagogas, ou em qualquer lugar da cidade (Ver. 12).

     Isto expôs simultaneamente outra falha na acusação de Tértulo. Tértulo poderia acusá-lo de provocar a insurreição “por todo o mundo”, mas Félix era governador da Judeia e a questão era o que ele havia feito em Jerusalém nos últimos dias. Quanto ao resto, o apóstolo respondeu simplesmente: “Nem tampouco podem provar as coisas de que agora me acusam” (Ver. 13).

     Mas o apóstolo responde à acusação de heresia com ainda maior eficácia e embaraço para os seus oponentes.

     “Mas confesso-te”,[2] diz ele, “que, conforme aquele Caminho, a que [eles] chamam seita, assim sirvo ao Deus de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na Lei e nos Profetas” (Ver. 14). A sua fé em Cristo não era apostasia das Escrituras do Antigo Testamento, mas obediência às mesmas. Eles é que eram os hereges por se recusarem a acreditar nas Escrituras e por rejeitarem o seu próprio Messias. Até mesmo a obra consumada de Cristo, que Paulo havia proclamado, não era uma contradição ao Antigo Testamento, mas sim o ponto culminante da sua mensagem e programa. A doutrina da justificação pela fé em Cristo não anulava a lei; estabelecia a lei e oferecia a única base sobre a qual Deus poderia justificar os pecadores (ver Rom. 3:24-26, 31).

     Mas o apóstolo ainda não terminara a resposta. Ele encostará à parede os seus acusadores.

     “... crendo tudo quanto está escrito na Lei e nos Profetas”, diz ele, “tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, de que há de haver ressurreição de mortos, tanto dos justos como dos injustos” (Vers. 14,15).

     Deve ser observado que uns dias antes, diante do Sinédrio, ele havia levantado a questão da negação que os Saduceus faziam da ressurreição e expôs a desunião entre os príncipes de Israel. Ele poderia ter feito isso novamente perante Félix, mas absteve-se, sem dúvida por respeito à sua nação e pelo testemunho que ele e eles puderam ambos dar a Félix. Como a maioria do Sinédrio e a grande maioria dos Judeus acreditavam na ressurreição, já que era essa a fé Hebraica tradicional e o ensino das suas Escrituras, ele podia dizer com verdade: “como estes mesmos também esperam”, deixando-os enfrentar secretamente a facto embaraçoso de que os hereges seriam encontrados entre eles, os seus acusadores, e ao mesmo tempo deixando-os sem palavras perante Félix para não exporem a profunda discórdia que prevalecia entre si. Ele cria nas Escrituras do Antigo Testamento quanto à ressurreição, enquanto alguns deles, até mesmo os seus principais sacerdotes, não - e agora eles acusam-no a ele de heresia?

     Mas enquanto o apóstolo demonstrou-lhes a fraqueza da sua posição, ele ainda não estava a responder à acusação de heresia. Ao usar a verdade que alguns deles negavam, ele fazia pesar a culpa deles, sondando as suas consciências ainda mais profundamente.

     Continuando com a sua defesa, o apóstolo declara que é porque haverá uma ressurreição tanto dos justos como dos injustos; porque todos terão que enfrentar a Deus um dia, que “por isso, procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (Ver. 16).

     Menos de uma semana antes, ele havia dito ao Sinédrio, com perscrutador olhar, que tinha “andado diante de Deus com toda a boa consciência”, e por dizer isto o sumo sacerdote ordenara àqueles que ali estavam para que lhe “ferissem na boca” (23:1,2). Agora, diante de Félix, onde o sumo sacerdote não podia fazer o mesmo, Paulo enfatiza novamente a questão da consciência.       

     Havia uma razão significativa para isto. A grande questão entre Israel e Paulo não era mais teológica, mas moral. Eles já haviam sido rodeados de provas contundentes de que Jesus era “o Cristo, o Filho de Deus”, mas, apesar de tudo, ainda O rejeitavam obstinadamente. Eles estavam a violar as suas consciências e a fechar os olhos para a verdade.

     Isso acontece em grande parte com aqueles que se opõem à mensagem Paulina hoje. Eles têm sido confrontados com factos tão inegáveis ​​e cercados de provas tão avassaladoras que não conseguem mais responder-nos pelas Escrituras, mas continuam a encenar uma ação procrastinadora contra essa grande verdade e opõem-se, de várias maneiras, àqueles que a proclamam. Tal como aconteceu com os líderes religiosos dos dias de Paulo, não é mais uma questão de interpretações teológicas, mas de consciência. Os tais devem interrogar-se como responderão àquele diante de Quem todos nós um dia prestaremos contas.

     E agora o apóstolo toca numa das razões mais importantes porque ele tinha vindo a Jerusalém, isto é, “trazer à minha nação esmolas e ofertas”[3] (Ver. 17). Este facto poderia ser plenamente fundamentado e era em si uma resposta às três acusações feitas contra ele.

     Além do mais, foram certos Judeus da Ásia que o haviam acusado originalmente de fazer coisas erradas, embora o tivessem encontrado “já santificado no templo, não em ajuntamentos, nem com alvoroços”. Porque é que, então, eles não estavam aqui perante Félix para apresentar a sua queixa? Poderia haver uma prova mais clara da fraqueza da sua questão do que a sua ausência deste julgamento?

     E aqueles que tinham feito acusações formais diante de Félix não tinham conhecimento pessoal de transgressões por parte do apóstolo, caso contrário argumentou ele, “digam estes mesmos se acharam em mim alguma iniquidade, quando compareci perante o conselho” (Ver. 20), desafiando-os ousadamente a declarar ao governador os resultados desse julgamento.

     E para lhes enfatizar ainda mais a falência da sua causa, ele relembra novamente o assunto que suscitara animosidades violentas entre eles no seu julgamento em Jerusalém que poderiam tê-lo matado se os soldados Romanos não o tivessem resgatado.

     Ele traz a questão à tona como uma espécie de reconhecimento, mas que efetivamente fecha as suas bocas, dizendo: “A não ser estas palavras que, estando entre eles, clamei: hoje, sou julgado por vós acerca da ressurreição dos mortos!” (Ver. 21).

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[1] Não “saber”, como diz a diz a versão Almeida Revista e Corrigida.

[2] A palavra Grega usada aqui não significa admitir culpa, mas falar livremente.

[3] Um exame às ocorrências da palavra Grega prosphora, e especialmente do seu verbo, prosphero, mostrará que aqui a palavra “ofertas” de modo algum se refere necessariamente a ofertas sacrificiais, mas a ofertas de qualquer espécie.

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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