Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLIV – Atos 24:1-27

Acts dispensationally considered

 

PAULO DIANTE DE FÉLIX

A ACUSAÇÃO DE TÉRTULO

 

     “Cinco dias depois, o sumo sacerdote, Ananias, desceu com os anciãos e um certo Tértulo, orador, os quais compareceram perante o governador contra Paulo.

     “E, sendo chamado, Tértulo começou a acusá- lo, dizendo:

      “Visto como, por ti, temos tanta paz, e, por tua prudência, se fazem a este povo muitos e louváveis serviços, sempre e em todo lugar, ó potentíssimo Félix, com todo o agradecimento o queremos reconhecer.

     “Mas, para que te não detenha muito, rogo-te que, conforme a tua equidade, nos ouças por pouco tempo.

     “Temos achado que este homem é uma peste e promotor de sedições entre todos os Judeus, por todo o mundo, e o principal defensor da seita dos Nazarenos;

     “O qual intentou também profanar o templo; e, por isso, o prendemos e, conforme a nossa lei, o quisemos julgar.

     “Mas, sobrevindo o tribuno Lísias, no-lo tirou dentre as mãos, com grande violência,

     “Mandando aos seus acusadores que viessem a ti; e dele tu mesmo, examinando-o, poderás entender tudo o de que o acusamos.

     “E também os Judeus o acusavam, dizendo serem estas coisas assim.”

- Atos 24:1-9.

     Os Judeus não perderam tempo em perseguir o homem que até então havia escapado do seu alcance. Apenas cinco dias depois da partida de Paulo de Jerusalém, Ananias e os anciãos[1] apareceram em Cesareia para processá-lo. Isto pode ser averiguado no facto de que este era o décimo segundo dia desde a sua chegada a Jerusalém (Ver. 11) e ele esteve em Jerusalém por cerca de sete dias (21:27; 22:30; 23:11,12).

     Deve ter sido incomum o sumo sacerdote participar pessoalmente de julgamentos em Cesareia, a quase cento e dez quilómetros de distância, mas ele tinha um interesse pessoal na acusação do homem que o chamara de “parede branqueada”.

     O juiz perante o qual eles deveriam apresentar a sua queixa era tudo menos um homem de justiça ou integridade. Os historiadores dizem-nos que ele era um ex-escravo, elevado à posição atual de governador da Judeia apenas por influência do seu irmão Pallas, um favorito do imperador, mas que foi chamado e julgado em Roma por má administração, e finalmente absolvido por Nero, apenas, uma vez mais, por causa da intercessão do seu irmão. Josefo fala da sua injustiça e crueldade e Tácito diz que "ele exerceu o poder de um rei com o temperamento de um escravo na prática de todos os tipos de luxúria e crueldade" (Hist. V, 9). Tudo isso concorda com o que as Escrituras nos contam sobre ele.

     Muitos comentaristas acreditam que Tértulo, o advogado de acusação, era um advogado italiano, contratado pelos judeus por causa de seu conhecimento da lei Romana e pelo efeito que a sua aquisição poderia ter sobre o governador Romano. Se isto é assim - e pode bem ser - a Escritura não deixa isso claro nem faz questão do caso, pois Tértulo está a representar aqui Israel e a atitude de Israel para com Cristo e o Seu servo Paulo.

     De acordo com a lei Romana, as acusações contra Paulo não foram ouvidas antes de Paulo ter sido “convocado” para enfrentar os seus acusadores “face a face” (Ver. 2; 25:16). Então o orador, Tertúlo, apresentou a queixa formal diante de Félix.

     A bajulação extravagante de Tertúlo ao iníquo Félix está em forte contraste tanto com o seu ataque cruel e sem escrúpulos a Paulo como com a resposta cuidadosa e factual de Paulo. Ele não ousaria elogiar Félix por integridade, justiça ou benevolência, ou os olhares nos rostos dos anciãos Judeus (que detestavam Félix) poderiam trair a sua falta de sinceridade e irritado o governador, por isso ele elogiou-o pela “paz” que a Judeia, em certa medida, tinha desfrutado sob o seu reinado, e “o providente cuidado” [TB] - uma expressão geralmente reservada para os deuses e o imperador. Por tudo isso, Tertúlo assegurou-lhe a gratidão ininterrupta e universal dos Judeus (Ver. 3).

     Muitos anos antes Moisés tinha declarado, por inspiração de Deus, que se Israel se rebelasse contra Ele:

     “O estrangeiro, que está no meio de ti, se elevará muito sobre ti, e tu mui baixo descerás … ele será por cabeça, e tu serás por cauda” (Deuteronómio 28:43,44).

     Este processo ocorreu velozmente quando o povo escolhido decaiu em poder perante a ascendência de Roma. Mesmo uns anos antes, ao rejeitarem a Cristo, o Conselho havia tomado as coisas nas suas mãos e impelido Pilatos a fazer o que eles queriam, pois “... os seus gritos e os dos principais dos sacerdotes redobravam. Então, Pilatos julgou que devia fazer o que eles pediam” (Lucas 23:23,24). Agora eles vêm com uma lisonja abjecta dirigida a um governante que desprezam, cuidadosamente para não o deter “muito”, suplicando-lhe a sua “clemência” [RA] para ouvi-los “por pouco tempo” (Vers. 2-4).

     A estratégia que a acusação usou não é difícil de discernir.

     Primeiro, eles fizeram três acusações contra ele: uma de sedição, contra a lei Romana, outra de heresia, contra a lei Hebraica, e uma terceira de sacrilégio, contra ambas.

     Paulo era “uma peste”, “uma praga”,[2] declarou Tértulo, promovendo a sedição “entre todos os Judeus, por todo o mundo”. Além da mentira básica dessa acusação, seria interessante investigar desde quando os Judeus se tinham tornado cidadãos Romanos tão patrióticos! Quem poderia negar que os próprios sacerdotes teriam ficado genuinamente satisfeitos em ter alguém que se levantasse contra Roma “entre todos os Judeus, por todo o mundo”?

     Depois, Paulo também era suposto ter sido o “principal defensor da seita dos Nazarenos”[3]. Esta acusação aproximou-se mais da verdade, embora Paulo fosse algo mais elevado do que o “principal defensor” de uma “seita”. Ele apenas proclamava a verdade sobre Cristo e isso era suposto ser heresia contra a lei de Moisés que, por sua vez, Roma se comprometera a respeitar.

     Finalmente, Paulo foi acusado de “profanar o templo”. Esta acusação era, evidentemente, totalmente falsa, mas foi calculada para pesar muito no juízo de Félix, já que era vantajoso para Roma preservar a santidade inviolada do templo.

     Mas a estratégia dos Judeus foi mais longe do que as acusações formais,[4] ​​envolvendo a pertinência de Lísias ter enviado Paulo a Félix para um julgamento Romano. Em outro desvio descarado da verdade, Tertúlo declarou que os Judeus haviam apreendido Paulo e tê-lo-iam julgado de acordo com a sua lei, mas que Lísias havia chegado e “com grande violência” o havia tirado das suas mãos, ordenando-lhes que fizessem as suas queixas a Félix.

     Isso, é claro, era completamente contrário ao relato de Lísias, sendo uma tentativa óbvia de se vingarem dele, tornando-o perturbador da paz, para que Félix fosse induzido a devolver Paulo às suas mãos - e para que os assassinos pudessem ainda ter oportunidade de atacar.

     Finalmente, Tértulo sugere que Paulo seja examinado por meio de tortura,[5] quer Félix o entregue, ou não, nas suas mãos, indicando ainda que o seu motivo em tudo isto era pura vingança.

     Antes de deixarmos Tértulo, podemos observar um exemplo da característica humana de distorcer a verdade em proveito próprio. Até agora tivemos três relatos discrepantes sobre o que aconteceu no alvoroço no templo.

     O primeiro é o relato de Lucas em Atos 21 a 23, inspirado pelo Espírito Santo e, portanto, correto:

     Certos judeus “alvoraçaram todo o povo” contra Paulo e “lançaram mão dele” (21:27). Tendo-o arrastado “para fora do templo”, procuraram matá-lo "(Vers. 30,31). Então “quando viram o tribuno e os soldados, cessaram de ferir a Paulo” (Ver. 32).

     Lísias, em seguida, levou o apóstolo em custódia e “lhe perguntou quem era e o que tinha feito”, mas “nada podia saber ao certo” sobre o alvoroço (Vers. 33,34). Mais tarde, portanto, Lísias ordenou “que o examinassem com açoites” apenas para descobrir que ele estava prestes a flagelar ilegalmente um cidadão Romano (22:24,25). Finalmente, ele ordenou ao Sinédrio que se reunisse e decidisse sobre uma acusação ou acusações contra o apóstolo, mas isso também havia se mostrado inconclusivo, pois Lísias foi novamente forçado a resgatar Paulo das suas mãos enquanto eles lutavam entre si para que não o despedaçassem (22:30-23:10).

     Na carta de Lísias a Félix, porém, os factos são estranhamente alterados para sua própria vantagem. Explicando como o apóstolo havia sido tomado pelos Judeus e poderia ter sido morto por eles, ele continua: "... sobrevim eu com a soldadesca[6] e o livrei, informado de que era Romano" (23:27). Este último relato foi claramente falso, pois Lísias não sabia que Paulo era um cidadão Romano até depois de ele ter dado ordens para examinarem-no por flagelação (22:24-28). Esta foi simplesmente uma tentativa astuta por parte de Lísias para evitar, se possível, ter que enfrentar uma acusação de conduta ilegal em relação a um Romano.

     Lísias dá a impressão, além disso, de que tendo levado Paulo perante o conselho Hebreu, ele soube o que eles tinham contra ele quando, na verdade, Lísias não conseguiu saber coisa alguma com essa investigação, pois os juízes haviam lutado tão ferozmente entre si que ele foi obrigado a enviar tropas para resgatar Paulo uma segunda vez (23:10). Mas não seria sensato deixar que Félix soubesse que ele tinha ficado frustrado com as suas tentativas para saber o que os Judeus tinham contra Paulo.

     Mas agora o relato dos Judeus sobre o incidente, como relatado por Tértulo, é novamente diferente. Ele diz, com referência a Paulo: “... o prendemos, e conforme a nossa lei o quisemos julgar. Mas, sobrevindo o tribuno Lísias, no-lo tirou dentre as mãos, com grande violência” (24:6,7) . “E também os judeus o acusavam, dizendo serem estas coisas assim” (Ver. 9).

     De acordo com o seu testemunho, tudo havia corrido bem e eles estavam prestes a dar a Paulo um julgamento justo quando, veio sobre eles Lísias e o tirou! Esta tratava-se de uma deturpação mais descarada do que tudo o que Lísias tinha escrito, pois eles não só estiveram prestes a matar Paulo quando Lísias o resgatou, como eles quase o despedaçaram uma segunda vez e finalmente participaram com mais de quarenta assassinos numa viciosa conspiração para acabar com ele (21:31; 23:10,12,20,21). De facto, foi Lísias que lhes ordenou que fizessem uma audiência a Paulo e eles depois lutaram entre si de tal modo que a vida de Paulo esteve novamente em perigo (22:30; 23:7-10).

_______________________________ 

[1] Ou, “certos anciãos”.

[2] “Pestífero” na TB, que produz peste, que corrompe. Nota do tradutor.

[3] Um termo desprezivo para os crentes em Cristo. Aqui a palavra “seita” é hereseos, ou “heresia” como no ver. 14.

[4] A passagem da palavra “o” [o prendemos] no ver. 6, para “a ti” no ver. 8, é omitida em alguns dos mais antigos MSS, mas não no Siríaco, que antedata os mais antigos MSS. Pelo contexto também parece pertencer ao texto.

[5] Anakrino é usado na linguagem forense como um exame por tortura (veja João 19:1, Lucas 23:14; Atos 22:24,29, etc.). Uma vez que a palavra Grega está no singular Tértulo não poderia estar a sugerir tal exame aos judeus, nem, no contexto, poderia ter querido dizer que Lísias deveria ser assim examinado. O “dele”, então, refere-se a Paulo.

[6] Ou, “os meus soldados”.

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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