Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XL – Atos 21:15-26 (7)

Acts dispensationally considered

 

ESTARIA CERTO OU ERRADO CEDER?

     Assim, o apóstolo foi instado a endossar a ação de quatro Judeus zelotas no voto do Nazireado, financiando não um, mas cinco sacrifícios cruentos por cada um. E ele foi instado a fazer isso para provar que ele era um fiel observador da lei. Estaria certo ou errado ele ceder?

     Ao examinarmos todas as Escrituras envolvidas, não podemos chegar senão a uma única conclusão: estaria errado.

      Muito tem sido dito sobre os dois programas correrem lado a lado na última parte dos Atos. Não temos objeções à expressão “lado a lado”, se for entendido que não era propósito de que ambos os programas continuassem com a mesma força durante aqueles anos. À medida que o novo programa ia emergindo gradualmente, o velho ia gradualmente desaparecendo. Houve uma transição de um para o outro. A parte de Pedro na conversão de Cornélio e a sua casa, as suas palavras em Atos 15:8-11 e a decisão do Concílio de Jerusalém tão-somente indicavam que, mesmo da parte dos crentes Judeus havia uma libertação gradual da lei. A queda da “parede de separação que estava no meio” afetou ambos os lados.

     Mas Paulo não tinha escrito aos Coríntios que todo homem deveria permanecer como foi chamado, e que o circuncidado não deveria tornar-se incircuncidado? (1 Cor.7:18). Primeiro, o apóstolo aqui não se refere a posições doutrinárias que os homens pudessem defender, mas a circunstâncias físicas em que se encontravam, incluindo escravidão, virgindade, vida de casado, etc. Ora, havia evidentemente alguns Judeus convertidos que se tinham tornado tão extremistas nos seus sentimentos sobre a circuncisão e a lei, que haviam procurado, por operações cirúrgicas, tornarem-se "incircuncidados". A palavra Grega "epispaomi", ao contrário da palavra usual para incircuncisão, é um termo cirúrgico que significa "cobrir". Assim a passagem nada tem a ver com os Judeus permanecerem no Judaísmo.

     Mas ele não escreveu também: “E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivera debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivera sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei”? (1 Cor. 9:20,21).

     Alguns pensam que esta passagem contém a justificação plena do envolvimento de Paulo no Judaísmo neste momento. Eles supõem que tal significa que ele se colocava alternadamente em sujeição à lei e em liberdade da mesma quando trabalhava, ora com os Judeus, ora com os Gentios respetivamente.

     Os que interpretam esta passagem dessa maneira para defender a ação de Paulo em Jerusalém devem tomar cuidado para não o acusar de algo pior do que um lapso na fidelidade. Podemos compreender como o apóstolo, como todos os outros homens de Deus, tropeçam e caiem, mas a interpretação acima de 1 Coríntios. 9:20 tornaria Paulo culpado de duplicidade habitual.

     Em primeiro lugar, o apóstolo trabalhou a maior parte do tempo com Judeus e Gentios. Em praticamente todas as igrejas que ele fundou havia Judeus no princípio; depois foram adicionados Gentios. Agora suponha que ele se colocava debaixo da lei a fim de ganhar os judeus, e depois, mais tarde, esses mesmos Judeus tinham conhecimento que entre os Gentios ele rejeitava o jugo e ensinava que as cerimónias do Judaísmo não eram “nada”; o que é que eles poderiam pensar dele?

     Nós cremos que a passagem em 1 Cor. 9 simplesmente significa que, simpaticamente, ele colocava-se mentalmente na posição daqueles com quem lidava. Ele não voltava ao Judaísmo enquanto estava entre os judeus, mas, reconhecendo os seus preconceitos, abstinha-se de fazer o que poderia ofendê-los - para gradualmente lhes ensinar as mesmas verdades que ensinara aos Judeus de Antioquia da Pisídia: justificação de tudo pela fé em Cristo, sem a lei (Atos 13:38,39).

     No versículo seguinte em 1 Cor. 9, o apóstolo diz: “Fiz-me como fraco para os fracos”. Isso significa que ele se tornou realmente fraco? Claro que não. Isso significa que ele simpatizava com os fracos, lidando com eles gentilmente, não mostrando a sua força. Da mesma forma, ele fez-se “como Judeu” para os Judeus e “como debaixo da lei” para aqueles que estavam debaixo desta.[1]

     Como já dissemos, os dois programas na última parte dos Atos não continuariam com a mesma força. O velho programa foi permitido continuar por algum tempo, só porque os homens demoram a aprender e os costumes tradicionais são difíceis de ser desfeitos. Mas que o apóstolo procurou mostrar “[aos] Judeus que [estavam] entre os Gentios” a obra consumada de Cristo e a sua liberdade em Cristo, juntamente com os Gentios, é evidente no facto de que em Antioquia ele, juntamente com Pedro, tinha vivido “como os Gentios” e repreendeu Pedro por voltar ao Judaísmo, por medo dos do grupo de Tiago (Gál. 2:14).

     Como poderia Pedro ou Paulo ter praticado a interpretação popular de 1 Coríntios 9:20,21 aqui em Antioquia, estando tanto Judeus como Gentios presentes? Se assim fosse, certamente que colheriam o fruto da duplicidade! E note ainda que Paulo repreendeu Pedro nesta ocasião, não por ter cruzado uma linha Judaico-Gentílica de modo errado ou no tempo errado, mas por ter voltado costas à luz recebida (Gálatas 2:15-19). Pedro tinha aprendido por uma visão especial e pela conversão de Cornélio que Deus não havia feito diferença entre Judeus e Gentios e ele declarou isso publicamente, e mais, no concílio em Jerusalém. Agora, ao separar os Judeus dos Gentios em Antioquia, ele estava a construir de novo o que ele havia destruído, tornando-se assim transgressor (Gál. 2:18).

     Portanto, não basta argumentar que durante a última parte dos Atos havia um programa para os Judeus e outro para os Gentios, pois foi com base na verdade revelada quanto aos ritos do Antigo Testamento que Paulo lutou pela emancipação dos Gentios dos mesmos, e foi também com base na verdade revelada que o programa Judaico seria gradualmente abandonado (Atos 15:8-11; Hebreus 10:1-39, etc.). Por conseguinte, quem procurasse agora se colocar debaixo da lei seria condenado, não por ter violado um programa, mas por ter desobedecido à verdade (Veja Gálatas 3:1; 5:7).

     Ao Paulo agora concordar em participar com os sacerdotes e os levitas incrédulos na oferta de holocaustos, ofertas pelo pecado e ofertas pacíficas, todas elas havendo sido cumpridas em Cristo, ele certamente estaria a ajudar a manter os crentes Judeus sob cativeiro de que os Gentios haviam sido libertados e que até mesmo Pedro descreveu como sendo um jugo demasiado pesado para suportar (Atos 15:10). À luz de todas as Escrituras sobre a matéria, é certamente mais defensável sustentar que ele aqui falhou do que dizer que esta era sua política.

     Mas, numa ocasião anterior, ele não tinha feito um voto e se apressou em observar uma festa em Jerusalém? Nessa ocasião o apóstolo também estaria fora da vontade de Deus? Em resposta nós sugerimos que examine o registo e observe as circunstâncias: No único caso registado onde uma congregação numa sinagoga desejava “que [ele] ficasse por mais algum tempo” com eles, “ele não conveio nisso” por estar com pressa porque era seu desejo estar a todo o custo em Jerusalém por ocasião da festa (Atos 18:20,21). E então o Espírito coloca um véu sobre as atividades do apóstolo. Que festa ele queria observar, não nos é dito. Nem nos é dito se ele chegou a Jerusalém a tempo ou como foi recebido. De facto, é apenas implícito que ele chegou a Jerusalém.[2]

     É claro que não somos informados, quer pelo próprio Paulo, quer por Lucas, que haveria um bom motivo para fazer o voto ou sobre a razão de ser necessário ele observar uma festa Judaica em Jerusalém. Só podemos concluir que a sua “grande tristeza e contínua dor” por Israel mantinha o seu coração voltado para Jerusalém e impelia-o a tomar este rumo para os ganhar, se possível.

     Mas, e que dizer da circuncisão de Timóteo e dos batismos que ele administrou? Não estavam ambos os atos ligados à lei? Aqui devemos enfatizar novamente o caráter transitório da última parte dos Atos. Sem considerar novamente as circunstâncias da circuncisão de Timóteo, esta, como os batismos de Paulo, foi feita antes de ele ter escrito a sua primeira epístola e quando ainda estava a receber revelações do Senhor glorificado, uma após outra. E quando ele olha para trás, anos depois, sobre os batismos aos Coríntios por si ministrados, ele agradece a Deus por não ter batizado mais, acrescentando: “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para pregar evangelizar ... Porque a palavra da cruz ... é o poder de Deus” (I Cor. 1:14-18).

     Quanto à proposta de Tiago para Paulo provar aos “zelotes da lei” de que ele próprio era um fiel observador da lei, o facto é que poucos dias depois Paulo testificou: “[Eu FUI] zeloso[3] para com Deus, como todos vós hoje sois” (Atos 22:3). E posteriormente ele testificou de novo perante Félix:

     “Mas confesso-te que, CONFORME AQUELE CAMINHO, A QUE CHAMAM SEITA, assim sirvo ao Deus de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na Lei e nos Profetas” (Atos 24:14).

    O apóstolo não poderia, então, ter sido um fiel observador da lei. Porque haveria ele agora de procurar provar que era? Porque haveria ele de tentar provar aos Judeus que ele “[andava] guardando a lei” quando certamente não o havia feito entre os Gentios?

     Ele havia vindo a Jerusalém para levar uma oferta aos santos pobres e “dar testemunho do Evangelho da graça de Deus”. Não há registo de que a oferta tivesse sido recebida com gratidão, e certamente que ele não poderia “dar testemunho do Evangelho da graça de Deus” oferecendo sacrifícios cruentos. Mas os sacrifícios nem foram realmente oferecidos. Contrariamente ao plano de Tiago, um grande tumulto e a prisão de Paulo “quando os sete dias estavam quase a terminar”, impediram-no de ter qualquer parte na oferta dos sacrifícios propostos.

 __________________________

[1] Alguns MSS (manuscritos), aqui, acrescentam mesmo as palavras “embora não esteja eu debaixo da lei” (Ver 1 Cor. 9:20, RA, NTLH, TB).

[2] Meramente é declarado que ele “subiu a Jerusalém, e, [saudou] a igreja” (Atos 18:22).

[3] Também aqui a palavra original é um substantivo: “[Eu fui] zelote”.

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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