Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXVII - ACTOS 16:1-3 (Cont.)

Acts dispensationally considered

 

A CIRCUNCISÃO DE TIMÓTEO

          O acto de Paulo circuncidar Timóteo, logo após o concílio em Jerusalém, tem confundido muitos estudiosos sinceros e aplicados da Palavra de Deus.

          Se ele tivesse circuncidado o jovem por se saber que a mãe era Judia, o problema poderia ser resolvido mais facilmente, mas a passagem em consideração afirma claramente que ele o circuncidou porque “todos sabiam que o seu pai era Grego” (ver. 3). Além disso, pouco tempo se tinha passado, quando ele insistiu, no concílio em Jerusalém, que os Gentios não deviam ser submetidos à circuncisão e à lei. Na realidade, ele tinha tomado com ele Tito, um Grego, como teste, tendo depois dito: “Mas nem ainda Tito... foi constrangido a circuncidar-se...aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição” (Gál. 2:3-5).

           Porque é que, então, Paulo circuncidou agora Timóteo? Será que tal procedimento era consistente? Teria ele contemporizado por conveniência?

          É certo que é muitas vezes difícil traçar uma linha entre o certo e o errado nos casos onde a conveniência está em causa, no entanto parece-nos que tanto uma consideração geral do incidente como um exame particular do mesmo revelará que o apóstolo não comprometeu nem violou os seus princípios nesta ocasião.

          Primeiro, um compromisso nestes assuntos numa altura destas teria sido totalmente inconsistente pois, recentemente, Paulo não somente tinha combatido pela liberdade Gentílica da circuncisão, em Jerusalém, como nos é dito claramente que tanto em Antioquia como “quando iam passando pelas cidades” nesta mesma jornada, eles entregavam às igrejas a decisão escrita do concílio em Jerusalém[1] (15:30; 16:4).

          Segundo, deve ser observado que o caso de Timóteo diferia amplamente do de Tito, não somente porque Timóteo era parcialmente Judeu, mas também porque no seu caso um tal princípio não estava em causa como aconteceu com Tito. No caso que envolveu Tito, os crentes em Jerusalém tinham procurado estabelecer como princípio a circuncisão dos Gentios e a guarda da lei como requisito para a sua salvação. Nesse caso Paulo “nem ainda por uma hora cedeu com sujeição” (Gál. 2:5). Os Gentios, a quem ele tinha sido enviado com as boas noticias da graça, não seriam colocados debaixo da lei.

          Contudo, no caso de Timóteo, um tal princípio não estava em causa. Ninguém estava aqui a procurar impor a circuncisão a Timóteo. Foi por amor dos Judeus incrédulos (ver. 3) que Paulo circuncidou Timóteo, e isso foi feito voluntariamente, a fim de que todos os impedimentos possíveis ao seu ministério entre o povo de Israel fossem removidos.

          Terceiro, o elemento tempo é um factor importante na interpretação do livro dos Atos. Deve ser recordado que Paulo recebeu gradualmente as grandes verdades da graça, numa série de revelações, e que a circuncisão de Timóteo ocorreu antes de ele ter escrito a sua primeira epístola. Uns anos mais tarde escreveria aos crentes Gálatas, tanto Judeus como Gentios:

          “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.[2] E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” (Gál. 5:2-3).

          Estes crentes Gálatas viam a lei como cumprida em Cristo, e depois, por meio da influência dos Judaizantes de Jerusalém, começaram a colocar-se de novo debaixo da lei.

          Assim, alguém hoje submeter-se à circuncisão em conformidade com a lei seria errado, como seria completamente despropositado qualquer Gentio fazê-lo mesmo naquele tempo. Porém, devemo-nos lembrar que o concílio em Jerusalém ainda não tinha legislado contra a circuncisão dos crentes Judeus, que o ministério de Paulo ainda era “primeiro ao Judeu” e que naturalmente ele principiou por dar-lhes o seu testemunho provando que “Jesus é o Cristo”, o Messias de Israel.

          E agora Timóteo acompanhá-lo-ia – um jovem que fora educado como judeu devoto e que até era meio Judeu fisicamente – todavia nunca tinha sido circuncidado. Se ele continuasse incircuncidado o ministério deles entre os judeus teria sido impedido logo à partida, pois “todos sabiam que seu pai era Grego” e, ao suspeitarem da sua incircuncisão, tê-lo-iam considerado um “separado da comunidade de Israel”. Até mesmo o convívio social com os Judeus teria sido impedido, pois eles consideravam uma abominação comer com os incircuncisos.

          A declaração, então, de que Paulo circuncidara Timóteo porque “todos sabiam que seu pai era Grego”, não nos deve levar á conclusão que Paulo estava a fazer uma concessão aos crentes Judeus que achavam que os crentes Gentios deveriam ser circuncidados. Foi claramente por amor aos judeus incrédulos que Paulo circuncidou Timóteo.

          É verdade que Timóteo podia ter permanecido incircuncidado e que ninguém poderia ter o direito de lhe impor o rito. Na realidade, se os irmãos tivessem exigido a circuncisão de Timóteo na base de Atos 15:1, Paulo ter-se-ia oposto à sua tentativa de o colocarem sob escravidão, mas uma vez que Timóteo era parcialmente Judeu, fisicamente, e grandemente Judeu na sua educação, e visto que a circuncisão ainda era a marca do povo do concerto de Deus, Paulo circuncidou-o de forma a dali em diante o ministério de Timóteo para o povo de Israel poder ser tão livre e desimpedido como o seu.

          Neste ato realizado nesta fase de transição do Judaísmo para a Graça, Paulo estava simplesmente a ensinar a lição de que apesar de por um lado não temos o direito de abrir mão da nossa liberdade (Gál. 5:1) temos liberdade de abrir mão dos nossos direitos. Foi precisamente isso que ele quis dizer quando exortou os crentes Gentios para que não fizessem uso da sua liberdade a fim de darem ocasião à carne, mas se servissem mutuamente por amor (Gál. 5:13). Foi isso também que ele quis dizer quando os exortou a respeito dos “dias” e “comidas” dizendo-lhes para exercerem a sua liberdade em amor, cedendo o benefício e privilégio pessoais, se necessário, em favor do benefício espiritual dos outros (Rom. 14:1-15:2; I Cor. 8:1-10:33). Foi isso que ele quis dizer quando escreveu:

          “Porque sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais.

          “E fiz-me como Judeu para os Judeus, para ganhar os Judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivera debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei” (I Cor. 9:19,20).

          Todavia devemos ter aqui muito cuidado. Alguns bons ensinadores da Bíblia, argumentando que um programa duplo se manteve durante a última parte dos Atos, têm descorado a significante repetição da palavra “como” em I Cor. 9:20-22, interpretando a passagem com o significado de que Paulo se colocava debaixo da lei quando entre os Judeus, de forma a ganhá-los, e vivia livre da lei quando entre os Gentios.

          Contudo estes irmãos, devem explicar então como é que os crentes Judeus em Corinto, por exemplo, (igreja a quem ele escreve) poderiam ter respeitado Paulo, se, depois de ele lhes comunicar o sentimento de que era Judeu, que permanecia na lei de forma a ganhá-los para Cristo, procurava depois ganhar os Gentios mostrando-lhes que não se encontrava debaixo da a lei!

          Deve ser reconhecido que o programa duplo da última parte dos Atos não continuava com a mesma força. Um estava a desalojar o outro gradualmente (ainda que muitos Judaizantes procurassem impedir a transição) e é evidente pelo registo, que Paulo começava a ensinar as verdades da graça aos próprios Judeus que ele procurava ganhar, ao colocar-se compassivamente na sua posição. Ele não era culpado de comportamento dúbio quando, entre os Judeus, ele procurava, tanto quanto fosse consistente, abster-se de práticas e de procedimentos que pudessem violar os seus padrões, de forma a ele poder ministrar-lhes um melhor testemunho de Cristo.

          A alguém que se incline a tomar a circuncisão de Timóteo feita por Paulo como justificação para a prática do batismo na água nos nossos dias, não temos senão que lhe recordar que a transição da dispensação anterior para a presente ficou consumada com o aprisionamento de Paulo em Roma, depois do qual tanto a circuncisão física como o batismo físico foram eliminados do programa de Deus para a Igreja (Ver. Gál. 2:10-12).

 

[1] De Atos 15.28-31; 21.25 e outras passagens afins, conclui-se claramente que os “decretos” (plural) de 16.4 referem-se a cópias do decreto, não a uma lista de decretos. A decisão deles e o seu decreto era que os Gentios não seriam colocados debaixo da lei (21.25), embora esperassem que os irmãos Gentios cooperassem na abstenção da práticas que à partida os poderiam separar dos Judeus (Atos 15.21-29).

[2] Certamente que logicamente, não realmente.

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Cornelius R. Stam

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