Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXVII - ACTOS 16:1-3

TIMÓTEO ESCOLHIDO PARA ACOMPANHAR PAULO E SILAS
“E chegou a Derbe e Listra. E eis que estava ali um certo discípulo por nome Timóteo, filho de uma Judia que era crente, mas de pai Grego;
“Do qual davam bom testemunho os irmãos que estavam em Listar e em Icónio.
“Paulo quis que este fosse com ele: e tomando-o o circuncidou, por causa dos Judeus que estavam naqueles lugares: porque todos sabiam que seu pai era Grego.”
Atos 16:1-3
UM JOVEM PROMISSOR
Os que querem servir o Senhor aceitavelmente podem bem aprender com a perseverança e coragem de Paulo. A passagem atrás citada regista a sua terceira visita a Derbe e Listra, onde foi apedrejado e deixado como morto.
Foi nessas proximidades que Paulo descobriu um jovem, naturalmente providenciado por Deus como outro auxiliador e companheiro de viagens, e destinado a tornar-se num dos seus cooperadores mais fiéis e eficazes. Que a provisão é notável vê-se no facto do registo do incidente abrir com a aclamação ”Eis!”.
Timóteo foi o fruto infeliz de um casamento nada sábio e nada Bíblico. A mãe era Judia – chamava-se Eunice – e o pai era Grego. Na Judeia raramente aconteciam casamentos destes, mas aqui, entre os judeus da dispersão, eram naturalmente mais comuns. Talvez o jovem Grego aludido tenha dado a entender a Eunice e à mãe, que quando se casassem se tornaria um verdadeiro adorador do Deus de Israel, no entanto é evidente que tal não aconteceu, pois Timóteo nunca foi circuncidado e a passagem que estamos a considerar indica que ele, o pai, tinha continuado “Grego”. Apesar disto, estas circunstâncias foram graciosamente vencidas.
Quaisquer que tenham sido as tentações que tenham levado Eunice a aceitar este jugo desigual e quaisquer que tenham sido as razões para que a mãe, Loide, tenha consentido o casamento, é evidente que ambas se censuraram pelo que acontecera e procuraram fervorosamente reparar o erro, pois o apóstolo refere-se à sua fé não fingida (II Tim. 1:5) e ao facto de Timóteo ter aprendido “as sagradas letras desde a sua meninice” (II Tim. 3:15).
A respeito disto Dean Houson observa:
“Não é notável que um carácter que se encontra entre os mais íntegros e encantadores na Bíblia, seja o de uma pessoa cujas relações domésticas e cuja educação infantil sejam assim descritas?” (Companions of St. Paul – Companheiros de S. Paulo, p 269).
Ainda assim, e apesar disso, embora a mãe e a avó tivessem ensinado diligentemente as Escrituras a Timóteo, que o podiam tornar “sábio para a salvação” (II Tim. 3:15), não foi diretamente pela instrumentalidade delas, mas pela de Paulo, que ele foi salvo, pois Paulo denomina-o “meu verdadeiro filho na fé” (I Tim. 1:2; cf. ver. 18 e II Tim. 1:2; 2:1). Timóteo foi aparentemente salvo quando da primeira visita de Paulo a Listra. Nós sabemos, de II Tim. 3:10,11, que ele tinha um conhecimento íntimo do “modo de vida” de Paulo e das suas perseguições em Antioquia, Icónio e Listra.
Essa visita a Listra ocorreu uns seis anos antes e foi cerca de doze anos após esta presente visita, que Paulo escreveu a Timóteo: “ninguém despreze a tua mocidade” (I Tim. 4:12); de forma que Timóteo, na altura da sua conversão, devia ser um jovenzinho muito novo. Todavia toda a sua instrução nas Escrituras, “a fé não fingida” da mãe e avó, a inspiração da pregação de Paulo e o conhecimento íntimo que possuía do modo de vida do apóstolo e dos seus sofrimentos por Cristo, deve-lhe ter tudo causado um grande impacto e produzido um grande efeito na sua vida, [1] pois “eis!” agora aqui um jovem, um crente já consagrado e promissor! Na realidade, a sua influência cristã tinha-se já estendido para além dos limites da sua cidade natal, pois lemos que ele tinha “bom testemunho” dos irmãos de duas igrejas: a que se reunia em Listra e a que se reunia em Icónio (ver. 2).
Das duas epístolas a Timóteo torna-se evidente que ele era culto e requintado, estudioso desde a sua juventude, de saúde delicada e possuindo, como seria natural devido à sua proveniência, uma ternura quase feminina, pois Paulo escreve-lhe acerca da sua infância, da mãe, da avó e das suas “constantes enfermidades” e insta com ele para que não se envergonhe nem receie ou fraqueje, mas pelo contrário seja forte, como “bom soldado de Jesus Cristo”.
Uma vez que Timóteo não era robusto em carácter, parece que algumas vezes Paulo temia que ele abandonasse o combate. Contudo, Timóteo não o abandonou, antes pelo contrário provou ser corajoso e fiel até ao fim. Ele veio a ser o aliado que Paulo teve como mais íntimo e por mais tempo.
Para além de ministrar a Paulo e de operar com ele durante muito tempo, Timóteo foi deixado em muitas igrejas, e a elas enviado, onde a sua ajuda era particularmente necessária (ver Atos 17:14; 19:22; I Cor. 4:17; I Tes. 3:2; I Tim. 1:3), e Paulo menciona-o como co-escritor de seis das suas epístolas (II Cor. 1:1; Fil. 1:1, Col. 1:1; I Tes. 1:1; II Tes. 1:1; Filémon 1).
A estima e afeição do apóstolo por Timóteo são logo vistas naquelas passagens em que ele o descreve como seu “irmão”, “ministro de Deus”, seu “cooperador no Evangelho de Cristo”, “seu filho amado e fiel, no Senhor”, etc.
Numa das suas últimas cartas, o apóstolo escreve acerca dele:
“E espero no Senhor Jesus que em breve vos mandarei Timóteo, para que também eu esteja de bom ânimo, sabendo dos vossos negócios.
“Porque a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide do vosso estado.
“Porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus,
“Mas bem sabeis qual a sua experiência, e que serviu comigo no evangelho, como filho ao pai.” (Fil. 2:19-22).
Mesmo no início do seu ministério para Cristo, Timóteo deve ter servido com Paulo em muitos mais lugares do que os que se encontram registados, pois Paulo, ao escrever aos Coríntios, explica que Timóteo recordar-lhes-ia os seus caminhos: “como por toda a parte ensino em cada igreja” (I Cor. 4:17).
Um outro passo dado na transição da velha dispensação para a nova é visto no facto de até aqui todos os companheiros das viagens de Paulo nas suas jornadas apostólicas terem sido escolhidos dentre a Circuncisão, ao passo que aqui, pela primeira vez, foi escolhido um que era Judeu apenas parcialmente. Contudo, por razões que havemos de considerar detalhadamente, o apóstolo iniciou-o formalmente na linhagem Hebraica com o rito da circuncisão.
Ademais, um culto de consagração pública foi evidentemente realizado para o jovem, antes de ele embarcar para a jornada com Paulo e Silas. Nesse culto homens com o dom da profecia declararam que Deus escolhera Timóteo para este ministério e o Espírito comunicou-lhe um “dom” especial para a obra, quando os anciãos da igreja, juntamente com Paulo, e provavelmente Silas, se identificaram com ele pela imposição de mãos (I Tim. 1:18; 4:14; II Tim. 1:6). Enquanto a nova dispensação despontava no horizonte, a velha, com os seus dons miraculosos, ainda não se tinha “desvanecido”.
Timóteo, então, apesar de muito jovem, foi pela sua proveniência, pelo seu carácter pessoal, e agora pela sobrenatural provisão, singularmente qualificado para a obra que iria empreender ao acompanhar Paulo nas suas jornadas e ao assisti-lo na sua obra.
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



