Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXVII - ACTOS 15:36-41 (Cont.)

DOIS PARTIDOS EM VEZ DE UM SÓ
Ao prosseguirmos com os nossos estudos no Livro de Atos veremos como, cada vez mais, Deus governa providencialmente em vez de interferir diretamente, como acontecia no princípio.
Que grande mudança ocorreu em relação aos primeiros capítulos dos Atos! Ali, por exemplo, “era um o coração e a alma da multidão (mais de 5.000) dos que criam” (Atos 4:32) e quando dois impostores procuraram unir-se-lhes, Deus interveio e feriu-os de morte.
Porém agora os crentes, no seu todo, não eram mais uma unidade – nem mesmo os que se encontravam em Jerusalém. Daí a “dissensão e contenda” em Antioquia, a contenda em Jerusalém, a repreensão de Paulo a Pedro em Antioquia, e a “grande contenda” entre Paulo e Barnabé.
Em Pentecostes “eles foram todos cheios do Espírito Santo” (Atos 2:4) simplesmente porque “o dia de Pentecostes se cumpriu” (ver. 1) e tinha chegado o tempo para o derramamento do Espírito em poder. Contudo, agora, com o levantamento de Paulo, penetramos cada vez mais na dispensação onde vigora a exortação: “Enchei-vos do Espírito” (Efésios 5:18). Em Pentecostes, o Espírito tomou posse dos Seus e fez com que eles fizessem a Sua vontade. Agora, a ajuda do Espírito é providenciada por graça, mas temos que apropriá-la pela fé. Certamente que isto sugere um desafio maior e permite vitórias e recompensas maiores, mas também torna possível a derrota. È assim que se explica o registo de tantas falhas entre os crentes, depois do levantamento de Paulo para introduzir a nova dispensação.[1]
Mas apesar das intervenções diretas Divinas decrescerem para o fim dos Atos, é evidente que Deus governa providencialmente. Vimos isso nos resultados do concílio em Jerusalém, tão recheado de acidentes. Também vimos isso em todo o problema com os Judaizantes. Se os Judaizantes não tivessem vindo a Antioquia, o concílio em Jerusalém com as suas decisões importantes nunca se poderia realizar. Se Pedro não se tivesse “separado” dos Gentios em Antioquia, o argumento de Gálatas 2 teria perdido muita da sua força. Certamente que isto não desculpa Pedro e os Judaizantes, mas mostra-nos que apesar de Deus não intervir mais, direta e miraculosamente, nos afazeres dos homens, permanece contudo no trono, fazendo “todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade” e “ para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por Seu decreto” (Efé. 1:11; Rom. 8:28).
Foi também assim o caso de Paulo e Barnabé. No meio das falhas vemos Deus governar, pois agora existem dois grupos que vão pregar o evangelho, em vez de um; Barnabé levando Marcos, e Paulo levando Silas.[2]
Tem sido observado que Paulo e Silas foram encomendados à graça de Deus pela igreja (ver. 40), da mesma forma que Paulo e Barnabé no princípio ( Atos 13:3; 14:26), mas que Barnabé e Marcos não receberam tal recomendação nesta ocasião. Contudo isto pode ter acontecido porque Barnabé deixou repentina e secretamente por fúria ou desilusão, ou até por generosidade, a fim de deixar ali a obra totalmente a Paulo.
Na mesma linha de pensamento, parece que a igreja se colocou ali ao lado de Paulo, embora por outro lado deve ser novamente dito que o registo ulterior indica que a confiança de Barnabé em Marcos se justificou e que ele fez bem em dar ao jovem uma outra oportunidade.
Em todo o caso, Barnabé e Marcos navegam agora para Chipre, enquanto Paulo e Silas, viajam passando pela Síria e Cilícia (esperamos que não unidos pelo mesmo destino!). Esta é a primeira indicação de que tinham sido estabelecidas igrejas na Síria e Cilícia (aparentemente quando Paulo regressou de Tarso ou durante o seu ministério em Antioquia. Ver Gál. 1:21 e cf. Atos 9:30; 11:25,26; 15:23).
É animador verificar que os quatro homens que temos estado a considerar tinham realmente a mesma grande causa nos seus corações, e que passado algum tempo as suas feridas cicatrizaram. Em I Cor. 9:6 Paulo fala elevadamente de Barnabé como cooperador. Quanto a Marcos, em Col. 4:10, Paulo dá instruções aos crentes Colossenses para “o receberem”, em Filemon 24 chama-o “cooperador” e em II Tim. 4:11 faz o pedido tocante: “Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério”. Marcos caiu em si e Paulo recebeu-o graciosamente de novo. É na verdade tocante notar que Deus usou este Seu servo (Atos 13:5), que falhara tão lamentavelmente, inspirando-o para escrever o registo do Servo perfeito, o Evangelho Segundo Marcos.
Esta é a última vez que ouvimos falar de Barnabé e Marcos no livro de Atos. A razão dispensacional para o desaparecimento dos doze apóstolos do registo, e até de Barnabé e Marcos, foi a necessidade da mensagem e ministérios confiados a Paulo serem devidamente enfatizados. O desaparecimento de Barnabé do registo a partir desta altura não quer dizer que ele se tenha tornado num “reprovado” espiritual. Os comentários de Alexander Whyte sobre Barnabé são aqui pertinentes:
“A partir deste momento, receber o apóstolo Paulo, significa desfrutar da maior honra que qualquer casa na terra pode ter. Porém nenhum dos anfitriões orgulhosos desse feito pode jamais, com a sua honra, obscurecer a que Barnabé recebeu, pois ele foi o primeiro homem de influência e responsabilidade que abriu o seu coração e casa para Saulo de Tarso, quando toda a Jerusalém ainda lhe lançava pedras”. (Bible Characters – Caracteres Bíblicos, Vol. V, P. 230).
Sem dúvida que Paulo passaria agora a sentir a falta de Barnabé, não só porque ambos tinham passado conjuntamente por muitas experiências no seu serviço a Cristo, mas também porque as igrejas que ele agora se propunha visitar conheciam Barnabé e o nome de Barnabé estava associado ao seu na carta de Jerusalém. Como é que a rotura seria agora explicada? E a ausência de Barnabé não poderia levantar suspeitas a respeito da genuinidade da carta? Certamente que Silas era o homem certo para se levar num caso destes, pois sendo um dos “principais da igreja em Jerusalém, especialmente enviado para “lhes anunciar as mesmas coisas de boca” (Atos 15:27), poderia agora servir de grande ajuda, como ninguém mais.
[1] Para uma discussão mais completa desta assunto, ver o opúsculo do autor, “O andar do crente neste presente século mau”.
[2] Uma das razões para esta última escolha foi a necessidade de Paulo levar com ele alguém que pudesse testemunhar e confirmar a decisão do concílio em Jerusalém (ver Atos 15.27).
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



