Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXVII - ACTOS 15:36-41

PAULO PRINCIPIA A SUA SEGUNDA VIAGEM APOSTÓLICA
AINDA MAIS PROBLEMAS
“E Alguns dias depois disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar nossos irmãos por todas as cidades em que já anunciámos a Palavra do Senhor, para ver como estão.
“E Barnabé aconselhava que tomassem consigo a João, chamado Marcos.
“Mas a Paulo parecia razoável que não tomassem consigo aquele que desde Panfilia se tinha apartado deles e não os acompanhou naquela obra.
“E tal contenda houve entre eles, que se apartaram um do outro. Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre.
“E Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos irmãos à graça de Deus.
“E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas.”
- Atos 15:36-41.
A CONTROVÉRSIA ENTRE PAULO E BARNABÉ
Antioquia já tinha sido palco de suficiente altercação por causa dos Judaizantes, mas antes de abandonarmos o cenário ainda somos testemunhas duma outra controvérsia aguda, desta vez entre Paulo e Barnabé, companheiros em muito trabalho que fizeram juntos para o Senhor. O problema começou quando Paulo propôs que ele e Barnabé visitassem os irmãos “por cada uma das cidades”[1] onde tinham pregado a Palavra, a fim de verem como estavam. Obtemos aqui um respigo da preocupação do apóstolo pelos seus filhos na fé, tantas vezes expressa nas suas epístolas e especialmente em II Cor 11.28, onde ele fala do “cuidado de todas as igrejas”.
Barnabé concordou evidentemente com Paulo na sua intenção, só que “tinha em mente”[2] levar João Marcos com eles, enquanto que por outro lado, Paulo achava que seria um erro levar por companheiro aquele que se tinha “apartado”[3] deles logo após o embarque que fizeram na sua primeira viagem. Na discórdia, nenhum deles cedeu; Barnabé não iria sem Marcos e Paulo não iria com ele, até que a questão transformou-se numa disputa amarga. Na verdade, a contenda entre eles foi tão grande que os dois amigos se separaram um do outro, tendo Barnabé tomado Marcos e navegado para Chipre e Paulo escolhido Silas e (depois de ter sido encomendado a Deus pela igreja) viajado pela Síria e Cilícia.
QUEM É QUE ESTAVA ERRADO?
Seria um disparate meter água numa passagem como esta a fim de isentar de responsabilidade qualquer uma das partes envolvidas. Não existe nenhuma justificação para disputa tão acesa. Sem dúvida que foi imprópria e errada e por meio dela, Paulo e Barnabé provaram exatamente o que ambos disseram aos Listrianos:
“Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões” (Atos 14:15). Carateristicamente, as Escrituras apresentam francamente os factos para nosso ensino e bem. Enfatizamos isto porque, quando glorificamos o ministério de Paulo, como o fazem as Escrituras (Romanos 11:13), existem sempre alguns que nos acusam de exaltarmos a pessoa de Paulo.
Alguns explicam a contenda pela mudança das palavras: “Disse o Espírito Santo“, em 13:2, para as palavras, “ Disse Paulo”, em 15:36, como indício dum possível declínio espiritual. Contudo, não deve ser esquecido que na primeira passagem temos a instrução original do Espírito à Igreja em Antioquia com o propósito de separar Paulo e Barnabé para a obra em que se encontravam agora comprometidos. Por conseguinte, não seria de esperar o mesmo, nem sequer se deve supor que o apóstolo atua na carne cada vez que não sejam encontradas as palavras “Disse o Espírito Santo“. Na realidade, uma vez passada a era Pentecostal os crentes deveriam ter muito cuidado no dizer: “O Espírito Santo disse”, ou, “O Espírito Santo disse-me”, ou, “O Senhor disse-me”, a menos que se estejam a referir à Palavra de Deus escrita.
Houveram circunstâncias perfeitamente naturais que ocasionaram a disputa entre Paulo e Barnabé. Primeiro o fracasso de Marcos, sobrinho de Barnabé, logo na primeira jornada, teve os seus efeitos. Depois também, Paulo começou provavelmente a perder a sua confiança no próprio Barnabé; uma vez que ele (Barnabé) “se deixou levar” por dissimulação em Antioquia (Gálatas 2:13).
Por outro lado, Barnabé pode ter-se aborrecido ao ter sido envolvido na repreensão que Paulo fez a Pedro. Na realidade, pode ter sido que Barnabé tivesse sentido que Paulo tinha uma dívida pessoal para com ele, uma vez que tinha sido ele que o trouxera aos apóstolos em Jerusalém e depois à obra em Antioquia. Barnabé, outrora, também ocupara o primeiro lugar entre os profetas em Antioquia (ver Atos 13:1, onde Saulo é mencionado em último lugar) e os dois eram frequentemente falados como “Barnabé e Paulo”. Isto tinha acontecido igualmente assim no recente concílio em Jerusalém (Atos 15:12,25). Não obstante isso, Paulo começou a tomar a dianteira pouco a pouco, deixando Barnabé em segundo plano. Certamente que era essa a vontade de Deus, mas pode ter sido difícil para Barnabé reconhecer isso.
Contudo apesar das Escrituras não ofereceram qualquer justificação para a “contenda” que tiveram, não se segue daí que os princípios que a originaram tivessem sido necessariamente errados. Na realidade, um exame aos factos indica que ambos tinham razão e quando nos colocamos na posição de qualquer uma das partes envolvidas na disputa “podemos compreendê-la”; só que ambos falharam em se colocarem suficientemente na posição um do outro ou, como Paulo disse mais tarde, “não atende cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual para o que é dos outros” (Fil: 2.4)
Quanto à razão da contenda entre ambos, deverá ser observado do lado de Barnabé, que a deserção de Marcos deve tê-lo desiludido tanto quanto Paulo, e que Marcos deve ter sido tema das suas orações fervorosas, sendo parentes íntimos, como eram. Que tratos Barnabé teve com Marcos por carta, ou em Jerusalém, ou se Barnabé o trouxe novamente de volta da Antioquia, não sabemos. Contudo sabemos que ele estava ali e era evidente que Barnabé sentia haver fundamento suficiente para se lhe dar uma outra oportunidade; que tinha confiança que Marcos tinha aprendido a lição e que agora se podia confiar nele. Era perfeitamente natural e justo que Barnabé sentisse uma forte responsabilidade para com o seu jovem sobrinho nesta questão. É verdade que Marcos falhara, mas as faltas não são imperdoáveis e os homens não aprendem muitas vezes com as suas próprias falhas?
Contudo, este não é o quadro completo. Paulo não tinha as mesmas razões pessoais nem, provavelmente, os mesmos fundamentos para a confiança renovada em Marcos, como Barnabé, e provavelmente parecia-lhe um risco injustificado prosseguir com um companheiro assim numa jornada que a experiência revelara ser fértil em perigos. Isto pode ser compreendido, pois acima de tudo “requer-se nos dispenseiros que cada um se ache fiel” (I Cor: 4:2) e “como dente quebrado, e pé deslocado, é a confiança do desleal no tempo da angústia” (Prov: 25:19). Também não há dúvida que Paulo sentia que Barnabé tinha sido influenciado pela sua ligação de parentesco; que fora de tal forma influenciado pelo sentimento que não considerou os argumentos contra a sua ida.
[1] É este o pensamento no original. Eles tinham revisitado algumas cidades mas desta vez Paulo propôs que todas, sem excepção, fossem revisitadas.
[2] Bouluomat (grego) é traduzida melhor assim, que por “aconselhava”.
[3] Gr. Aphistemi, “desviado”.
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



