Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXI - ACTOS 12:25-13:1-3 (Cont.)

PAULO OPERANDO NÃO SOB A “GRANDE COMISSÃO”

     “Depois de mais de dezasseis anos, a Igreja encontrava-se finalmente preparada para começar formal e deliberadamente a sua obra entre os pagãos”. Este é o ponto de vista sustentado por um comentador1 a respeito dos primeiros versículos de Actos 13 e é o ponto de vista sustentado popularmente pelos Fundamentalistas. Certamente que este ponto de vista emana da noção infundada de que sob a chamada “grande comissão” os onze (mais tarde doze) foram enviados a proclamar “o Evangelho da graça de Deus” e que provaram ser infiéis à sua responsabilidade devido aos seus “preconceitos restritos contra os Gentios”, e que portanto se tornou necessário Deus erguer Paulo e enviá-lo aos Gentios.

     Isto, mesmo apesar de Pedro ter instado fervorosamente com Israel para que se arrependesse de modo que a salvação e a bênção pudessem fluir para os Gentios! (Actos 3:19-26). Isto, apesar dos anciãos Judeus terem “glorificado Deus” quando Pedro explicou como a casa de Cornélio foi salva! (Actos 11:18). Isto, apesar da igreja em Jerusalém ter enviado Barnabé para fomentar a nova obra Gentílica em Antioquia (Actos 11:22) e apesar de Barnabé, “quando chegou, e ter visto a graça de Deus, se ter alegrado, e exortado a todos a que permanecessem no Senhor” (Actos 11:23). Isto, mesmo apesar do relato de Paulo aos líderes em Jerusalém a respeito da “conversão dos Gentios ... ter dado grande alegria a todos os irmãos” (Actos 15:3).

No seu Silence of God (O Silêncio de Deus), Sir Robert Anderson diz a respeito do facto dos crentes Pentecostais terem ido apenas aos Judeus.

   “ ... se há alguns que tomam este facto por preconceitos e ignorância Judaicos, podem desde já pôr de parte este volume, pois é aqui assumido que os apóstolos do Senhor, ao falarem  e ao actuarem nos dias memoráveis do poder Pentecostal, foram divinamente guiados na sua obra e testemunho” (Pp. 76,77).

     É estranho que os mesmos comentadores que nos dizem que os doze falharam em levar a cabo a sua comissão porque eram “carnais” e “infiéis”, também nos digam usualmente que se fossemos tão espirituais e fiéis como os doze poderíamos ter o mesmo poder que eles!

     A respeito do ministério Pentecostal dos doze, Anderson diz de novo:

     “Os apóstolos foram divinamente guiados ao declararem que se, mesmo então, os ‘varões de Israel’ se arrependessem, o seu Messias retornaria para lhes cumprir tudo aquilo que os seus próprios profetas tinham predito e prometido no que respeita à bênção espiritual e nacional.

     “Representar isto como doutrina Cristã, ou como a instituição de ‘uma nova religião’, é denunciar e revelar ignorância tanto a respeito do Judaísmo como do Cristianismo. Os mensageiros eram Judeus – os apóstolos d’Aquele que era Ele próprio “um ministro da circuncisão”. Os seus ouvintes eram Judeus, e como Judeus foram reconhecidos. A Igreja Pentecostal que se encontrava baseada no seu testemunho era intensa e totalmente Judaica” (The Silence of God, Pp.74,75).

     Notemos bem, Anderson diz que eles foram “divinamente guiados” em tudo isto. A afirmação de que os doze falharam no seu dever e não desejavam levar a salvação aos Gentios é pouco melhor que o ponto do ministro Modernista que recentemente escreveu: “O próprio mestre, inicialmente, foi restrito e limitado na sua perspectiva. Recordemos como ele limitou os discípulos: ‘Não ireis, pelo caminho dos Gentios ... mas ide antes ás ovelhas perdidas da casa de Israel’. Mas mais tarde Ele também, mais sábio pela experiência, instruiu os mesmos discípulos: ‘Portanto ide, ensinai todas as nações’”.

     Este Modernista comete a mesma cegueira a respeito de Mat. 10:5,6 que os nossos irmãos Fundamentalistas cometem a respeito da “grande comissão”. Esquecem ambos que antes do levantamento de Paulo encontrava-se tudo baseado no grande Concerto Abraâmico e nas promessas do Velho Testamento de que por meio de Israel as nações seriam abençoadas (Gen. 22:17,18; Isa. 60:1-3; etc). Foi por isso que o Senhor concentrou-se em trazer Israel ao arrependimento e à salvação, e foi por isso que o ministério dos apóstolos sob a “grande comissão” principiou em Israel (Luc. 24:47; Actos 1:8). A única grande diferença entre a comissão em Mat. 10 e a dada após a ressurreição é que a dada após a ressurreição presumia que se Israel se arrependesse então a salvação poderia ser logo proclamada entre os Gentios.

     Mas isto é tudo distinto e diferente da comissão dada mais tarde ao apóstolo Paulo. O Senhor glorificado não chamara Paulo para cumprir uma missão que os doze tinham falhado em levar a cabo. Ele erguera Paulo para efectuar uma outra obra, uma obra que a comissão aos doze de modo algum contemplava. Os doze tinham sido comissionados para trazerem todas as nações aos pés do Messias, começando com Israel (Luc. 24:47; Actos 1:8; 3:25,26). Paulo, sob o novo programa foi enviado a proclamar graça aos Gentios por causa da rebelião de Israel (Actos 22:17-21; 13:45-47). O ministério dos doze estava baseado na esperança da resposta de Israel à chamada ao arrependimento e no rápido retorno do Messias para reinar como Rei. O ministério de Paulo estava baseado na contínua impenintência de Israel e no derramamento de graça do Senhor rejeitado – e glorificado.

     Em I Cor.15:5,8 Paulo fala dele mesmo como separado dos doze. Ele fora chamado como um apóstolo no caminho para Damasco, longe de Jerusalém, inteiramente à parte da autoridade dos doze e independentemente da sua “grande comissão”. E ele é agora enviado para ir “longe” ao território Gentílico, pela igreja em Antioquia, de novo inteiramente à parte da autoridade dos doze e independentemente da sua “grande comissão”. Na realidade, um dos doze já tinha morrido.


1 Stifler em Introduction to the Acts (Introdução aos Actos), P. 112.

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