Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXI - ACTOS 12:25-13:1-3
PAULO PRINCIPIA AS SUAS JORNADAS APOSTÓLICAS
BARNABÉ E SAULO ENVIADOS PELA IGREJA EM ANTIOQUIA
“E Barnabé e Saulo, havendo terminado aquele serviço voltaram de Jerusalém levando também consigo a João, que tinha por sobrenome Marcos.
“E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas doutores, a saber: Barnabé e Simeão, o chamado Niger, e Lúcio Cireneo, e Manahen, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo.
“E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.
“Então jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram.” - Actos 12:25 – 13:1-3.
A IGREJA EM ANTIOQUIA FIRMEMENTE ESTABELECIDA
No término do seu ministério para os santos pobres da Judeia, Barnabé e Saulo regressaram a Jerusalém, levando consigo João Marcos, sobrinho de Barnabé (Col. 4:10) e filho de Maria em cujo lar a reunião de oração a favor de Pedro se realizara recentemente (Actos 12:12). Nós apreenderemos mais tarde algo mais a respeito de João Marcos.
A igreja em Antioquia tinha-se tornado por agora bem estabelecida. Nós já aprendemos a respeito de Barnabé e Saulo que antes da sua partida para Jerusalém, “todo o ano se reuniram naquela igreja (em Antioquia), e ensinaram muita gente (11:26). Agora, no seu regresso lemos a respeito de três outros ministrarem com eles, e o “como” (Versão King James) - “a saber” na nossa versão – de 13:1 implica que havia ainda outros. Entre os nomeados encontramos até Manaem, o irmão adoptivo de Herodes que decapitou João Baptista.
A POSIÇÃO DISPENSACIONAL DE ACTOS 13:1-3
Ainda assim, isto não era senão o princípio da nova obra que Deus estava a fazer entre os Gentios, e Deus ainda não tinha terminado os seus tratos com a nação de Israel. Por conseguinte, no resto dos Actos veremos o velho programa desaparecer gradualmente à medida que o novo é introduzido também gradualmente.
Que o velho programa apenas tinha começado a dar lugar ao novo é evidente nos diversos detalhes aqui registados.
Primeiramente, lemos acerca de profetas à cabeça da igreja em Antioquia.
Um profeta não era necessariamente, como é geralmente suposto, alguém que prediz o futuro – ainda que a predição seja um elemento frequentemente encontrado na profecia – mas antes alguém que falava por Deus. O profeta, tanto no sentido da palavra no Velho como no Novo Testamentos, era o porta-voz de Deus. Daí frase única que nós, a maioria das vezes, associamos à profecia: “Assim diz o Senhor”. Certamente que em Pentecostes, o dom de profecia foi amplamente conferido em relação ao derramamento do Espírito Santo.
Não se deve presumir que os que agora proclamam a Palavra de Deus escrita são profetas no sentido Bíblico do termo, pois tanto o Novo como o Velho Testamentos indicam que a profecia era um meio sobrenatural pelo qual Deus tornava conhecida a Sua vontade enquanto a Palavra escrita ainda permanecia incompleta.1 Nos tempos do Velho Testamento os profetas recebiam frequentemente as suas mensagens quer por visões quer por outros meios de comunicação divina. Na passagem que estamos a considerar isto ainda é muito assim, e mais, pois em Pentecostes Deus deu a determinados santos Seus o “dom” sobrenatural de profecia (Rom. 12:6; I Cor. 12:8-10 e cf. I Cor. 13:8-13).2
Quanto ao livro de Apocalipse, sem dúvida que foi escrito por João consideravelmente após a morte de Paulo, mas o Apocalipse simplesmente desenvolve mais os detalhes do programa profético, para esclarecimento especial dos que hão-de viver quando aquelas coisas ali anunciadas acontecerem. Assim é Paulo, não João, que declara que lhe foi concedido a ele “cumprir (completar a Palavra de Deus)” isto é, doutrinalmente, com a revelação do mistério (Col. 1:24-26).
Saulo, um dos profetas mencionados na passagem que estamos a considerar certamente que era mais que profeta. Ele também era um apóstolo, e isso no sentido primário da palavra, pois ele tinha recebido a sua mensagem pela revelação do próprio Jesus Cristo (Gál. 1:11,12).3
Assim foi perfeitamente correcto e apropriado Deus ter dado “profetas” como também ensinadores à igreja em Antioquia, pois isto não era senão o princípio da grande obra que Deus se propunha realizar entre os Gentios, e para além do próprio Paulo, que falava com autoridade peculiar, era necessário que houvesse outros que, por revelação do Espírito, pudessem confirmar a sua palavra e assim ajudassem a estabelecer os santos na graça de Deus (cf. aqui Ef.3:1,3,5).
Em relação ao dom de profecia, nós lemos adiante que “o Espírito Santo disse ...” (13:2), isto é, Ele revelou a Sua vontade aos líderes em Antioquia por comunicação directa. Isto encontrava-se em harmonia perfeita com o dom de profecia. Lembramo-nos como, no caso do outro Saulo (Saul), primeiro rei de Israel, o profeta Samuel recebeu instruções divinas da mesma forma, quando “O Senhor lhe disse: Eis o homem a que Me refiro!” (Sam. 9:17).
É claro que deve ser claramente compreendido que estes dons sobrenaturais de “profecia” e de “conhecimento” já desapareceram há muito. A respeito desses dons o Apóstolo Paulo declarou especificamente, enquanto eles existiam:
“ ... MAS HAVENDO PROFECIAS, SERÃO ANIQUILADAS: HAVENDO LÍNGUAS CESSARÃO; HAVENDO CIÊNCIA DESAPARECERÁ” (I Cor. 13:8).
“AGORA, POIS, PERMANECEM A FÉ, A ESPERANÇA E A CARIDADE ESTAS TRÊS, MAS A MAIOR DESTAS É A CARIDADE” (I Cor. 13:13).
Assim o Espírito Santo retirou os dons da “profecia” e “conhecimento” juntamente com os outros dons sobrenaturais. Hoje ficamos de pé atrás quando ouvimos dizer acerca de alguém que reclama falar por autoridade de uma revelação especial, pois o Espírito Santo hoje em dia não nos fala por comunicação directa. Muitas pessoas erradas têm sido dadas por crentes sinceros por reacções emocionais terem sido tomadas por factos, e terem anti-biblicamente suposto que “O Senhor disse-me” para fazer isto ou aquilo. Até mesmo a respeito da compreensão das Escrituras o dom de conhecimento foi retirado. O Espírito não comunica miraculosamente o conhecimento da Sua Palavra a determinados indivíduos, ou aos que o possam pedir. É somente por meio da oração e do estudo diligente da Palavra que o Espírito Santo nos esclarece e equipa para sermos obreiros aprovados de Deus não necessitando de nos envergonharmos e manejando ou dividindo bem a Palavra da Verdade (I Tim. 2:15).
Nesta passagem existem três outros termos que também deveriam ser considerados à luz da verdade dispensacional, ainda que se situem algures numa categoria diferente.
“Servindo eles ao Senhor” (13:2). A palavra original para “servindo”, ou “ministrando” (Versão King James), a palavra original leitourges é usada em relação ao serviço dos sacerdotes nos tempos do Velho Testamento, e é por isso suposto por alguns que o pensamento aqui é que os líderes da igreja em Antioquia encontravam-se comprometidos na observância de cerimónias Judaísticas.
Mas a palavra leitourges em si não tem qualquer conotação ritualística significa simplesmente serviço, e é usada para auxílio financeiro (Rom.15:27; Fil. 2:25,30), para socorro angélico (Heb. 1:14), para ministério do evangelho (Rom.15:16) etc. E o facto da nossa palavra portuguesa liturgia derivar desta palavra não afecta o seu significado Bíblico, pois o original não adquire o seu significado a partir do derivado, mas o derivado a partir do original. Assim a nossa palavra liturgia vem da palavra Grega leitourges, que significa simplesmente serviço. Os crentes em Antioquia, então, encontravam-se simplesmente servindo ao Senhor. Não existe pois qualquer base para os fazer regressar ao velho programa!
Também o jejum aqui é pensado por alguns como pertencendo à lei de Moisés, quando de facto a lei de Moisés não manda jejuar. Contudo existem numerosos casos de jejum voluntário nas Escrituras pré-Paulinas e também é evidente que os que se assentavam na “cadeira de Moisés” tinham prescrito períodos de jejum e os tinham acrescentado à lei. A prática adquiriu assim um saber Judaístico. Contudo, geralmente o jejum era uma coisa muito natural. Frequentemente era simplesmente o peso da oração por alguma necessidade profunda que levava os suplicantes a negligenciarem ou até mesmo a privarem-se deliberadamente das suas refeições. Outras vezes era a ocupação com a Palavra de Deus. Job disse: “Tenho estimado as palavras da Sua boca mais que a minha comida necessária” (Job 23:12).
Não há nada nisto que seja inconsistente com a dispensação sob a qual vivemos, e certamente que Deus se agradará em qualquer época, se o Seu povo por se encontrar tão profundamente exercitado no respeitante às coisas espirituais e por se encontrar tão intensamente ocupado com a oração ou o estudo da Palavra, negligenciar ou colocar de parte o pensamento da comida por algum tempo.
Por outro lado, nenhum crente nesta dispensação da graça se pode sujeitar a jejuns prescritos sem cair sob a escravidão e condenação do legalismo (Gál 4:9,10; 6:1,13; Col. 2:20,21). E o jejum não conseguirá nada como um meio para aumentar a nossa espiritualidade ou para adquirir bênçãos de Deus (Col. 2:20-23).4
A imposição das mãos nesta passagem é ainda um outro assunto que deve ser considerado à luz da verdade dispensacional.
É verdade que durante o período dos Actos o Espírito Santo, ou algum dom especial do Espírito, era frequentemente comunicado pela imposição das mãos (Actos 8:18, etc). Todavia, apesar disso, a imposição das mãos em si não envolvia necessariamente algo de miraculoso. A prática, no Velho e semelhantemente no Novo Testamentos, simplesmente significava identificação.
Certamente que a “imposição das mãos” aludida em Heb. 6:2 não envolvia nada de miraculoso.
Era simplesmente o sumo sacerdote a identificar-se a si mesmo e ao seu povo com o animal colocando os seus pecados e do povo, simbolicamente, sobre a cabeça do mesmo (Lev. 16:21). Não há qualquer indicação de que os líderes em Antioquia comunicassem a Barnabé e a Saulo, seus superiores, quaisquer poderes miraculosos pela imposição das mãos sobre eles. Nem mesmo vemos aqui algo de ritualístico na imposição das mãos, como também o não vemos na dádiva das “dextras da comunhão” a Paulo e Barnabé , por Tiago, Cefas e João em Gál 2:9. O que os líderes em Antioquia estavam aqui a fazer era simplesmente a identificarem-se publicamente com Barnabé e Saulo no ministério que estes dois se propunham agora levar a cabo, significando deste modo que reconheciam a chamada deles a este ministério e que os apoiariam no mesmo.
1 Isto não quer dizer que quer o ensino quer a exortação da Palavra escrita não estivessem incluídos no seu ministério.
2 É certo que pode ser argumentado que a Palavra escrita, ainda não se encontrava completa em Actos 28, mas basicamente encontrava-se, pois o fundamento da grande revelação a Paulo nessa altura já tinha sido colocado. As epístolas prisionais simplesmente desenvolvem mais o tema introduzido nas primeiras epístolas: o mistério do propósito de Deus a respeito do corpo unido que já tinha sido trazido à existência. Mesmo Ef. 3:5 emprega o presente do indicativo na frase “Como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus santos apóstolos e profetas”. Por conseguinte não parece que o dom de profecia continuasse a ser necessário depois de Actos 28.
3 Que já lhe tinha aparecido no caminho para Damasco (I Cor. 15:8,9; Actos 26:16), em Jerusalém e provavelmente várias vezes durante a sua estadia na Arábia (Gál.1:17).
Quanto ao próprio João ter o “dom” de profecia durante tanto tempo para além da morte de Paulo, não cremos que isso tenha sido um facto. Existe uma grande diferença entre o “dom” de profecia e a obra do Espírito Santo levando homens a escrever as Escrituras.
4 Enquanto escrevemos isto, os jornais noticiam a morte, pela fome, dum pastor no Missouri, depois de 51 dias de jejum. Uma nota, explicando o seu propósito, revela: “Estou a procurar a vontade de Deus mais perfeita para a minha vida e a pedir a Deus que me mostre porque é que os sinais não se seguem ao meu ministério como Jesus disse que se seguiriam”. Este não é senão um dos resultados patéticos do ensino popular de que a comissão a Pedro e aos onze, em vez da de II Cor. 5:14-21, constitui a nossa “guia de marcha”.



