Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XX - ACTOS 12:20-24
A MORTE DE HERODES
“E ele estava irritado com os de Tiro e de Sídon; mas estes, vindo de comum acordo ter com ele, e obtendo a amizade de Blasto, que era o camarista do rei, pediam paz; porquanto o seu país se abastecia do país do rei.
“E num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal, e lhes fez uma prática.
“E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem.
“E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus, e, comido, de bichos expirou.
“E a palavra de Deus crescia e se multiplicava.” - Actos 12:20-24.
A tentativa do infame Herodes para melhorar a sua posição com os Judeus ao publicamente julgar e executar Pedro tinha sido frustrada, mas Deus não ficaria por aqui. O próprio Herodes seria executado publicamente – por Deus.
Pelo registo parece que os povos de Tiro e Sídon tinham de alguma forma incorrido no desagrado de Herodes a um grau tão elevado que ele se predispunha a declarar-lhes guerra. Contudo os dirigentes de Tiro e de Sídon necessitavam de paz por razões económicas e vieram, ou enviaram embaixadores, para procurarem os termos de paz aceitáveis do rei, aproximando-se dele por meio de Blasto, camarista do rei.
Qualquer que tivesse sido o resultado exacto, os termos de paz satisfatórios foram evidentemente encontrados, e Herodes decidiu fazer um discurso público em relação à questão.
Por conseguinte, no dia designado Herodes apareceu com as suas vestes reais e, do seu trono, falou ao povo, que aclamou em réplica: “É a voz de Deus e não de um homem!” Isto agradou grandemente Herodes e ele aceitou a adulação blasfema sem qualquer protesto.
Certamente que Herodes não era o primeiro soberano nas Escrituras a aceitar dos seus súbditos adoração como um deus, mas nenhum, que antes o fizera tinha sido tão culpado como ele, porque ele sabia que não havia senão um só Deus – o Deus de Israel – e que o verdadeiro Deus era um “Deus ciumento” que não queria que de alguma forma a Sua glória fosse dada a outrem.
Assim “um1 anjo do Senhor” feriu Herodes, e ele morreu uma morte muito mais ignominiosa que a que ele planeara para Pedro. Josephus diz-nos que deu-lhe repentinamente um ataque quando ele recebia a adoração do povo, e que teve de ser levado, torcendo-se e gemendo de dor.
E assim resolveu Deus a questão. Pedro, o prisioneiro condenado, foi liberto, enquanto que Herodes, que “tencionava” matá-lo, foi ele próprio morto. Quando o anjo “tocou” ou “feriu” Pedro (vers. 7) trouxe-lhe libertação e vida; quando “tocou” ou “feriu” Herodes (vers.23) trouxe-lhe destruição e morte. E enquanto as palavras de Herodes eram silenciadas pelo julgamento ou juízo, “a Palavra de Deus crescia e se multiplicava” (vers. 24).
A CRESCENTE APOSTASIA DE ISRAEL
No registo dos Actos é evidente que o discurso de Herodes foi feito não meramente para os dirigentes de Tiro e de Sidon, mas para o público em geral e o facto de a multidão em Israel exaltar este falso “rei dos Judeus” como “um deus” enquanto continuava a rejeitar o seu próprio Messias, indica o quão longe a apostasia de Israel tinha ido.
Mas a homenagem prestada a Herodes como um deus pelos seus ouvintes em Jerusalém não significava apenas a sua apostasia naquele tempo; também era típica do futuro resultado da sua apostasia; a sua subjugação ao “Homem do Pecado” no tempo do fim. O Senhor dissera muito bem:
“Eu vim em nome do Meu Pai, e não Me aceitais; se outro vier em seu próprio nome a esse aceitareis” (João 5:43).
HERODES UM TIPO DO FUTURO HOMEM DO PECADO
Herodes, cujo reinado sobre Israel era sustentado pelo poder de César e não por direito real, era certamente, um tipo do Anticristo, que, sustentado pelo poder dum futuro soberano mundial, denominado “a Besta”, um dia apresentar-se-á como o Rei Divino de Israel e receberá adoração da humanidade. Como Herodes, também ele será repentinamente julgado pelo próprio Senhor.
Daniel diz deste “Herodes” futuro:
“ ... E se levantará e se engrandecerá sobre todo o deus ... e será próspero até que a ira se complete ... “ (Dan. 11:36).
Paulo, pelo Espírito diz ele:
“Ninguém de maneira nenhuma vos engane: porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição.
“O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus.
“E então será revelado o iníquo a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda” (II Tes. 2:3,4,8).
A EXPERIÊNCIA DE PEDRO COMPARADA COM AS POSTERIORES EXPERIÊNCIAS DE PAULO
Esta experiência de Pedro pode ainda ser comparada às experiências porque Paulo mais tarde passou. Nesta experiência, como nas primeiras ocasiões, Pedro foi miraculosa e completamente libertado das mãos dos seus perseguidores. Em termos comparativos, embora um terramoto2 tivesse aberto as portas da prisão de Filipos para Paulo e Silas, eles declinaram aceitar a oportunidade de escapar (Actos 16:27,28) e mais tarde encontramos Paulo em Roma como um “embaixador em cadeias”, com nenhum anjo nem terramoto para o salvar. Que maior prova poderia haver do mau carácter deste século e da infinita graça de Deus para com os Seus inimigos, que este embaixador de Cristo, enviando uma mensagem de graça e reconciliação da sua cela prisional?
Também deveria ser notado que enquanto Pedro, no seu livramento anterior por um anjo, fora ordenado para regressar imediatamente ao templo e continuasse a pregar, ele agora retira-se privadamente para Cesareia e ao longo do resto dos Actos Paulo é o actor principal. Certamente que tudo isto indica uma mudança de dispensação, como indicam os outros desvios do programa do reino que já observámos, começando com a conversão de Saulo.
1 Não “o anjo”.
2 Mais providencial em carácter, que intervenção directa como quando Deus enviou o Seu anjo para libertar Pedro (Actos 5:19; 12:7).



