Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XX - ACTOS 12:17-19
PEDRO INFORMA OS SEUS AMIGOS
“E, acenando-lhes ele com a mão para que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirara da prisão e disse: Anunciai isto a Tiago e aos seus irmãos . E, saindo, partiu para outro lugar.
“E, sendo já dia, houve não pouco alvoroço entre os soldados sobre o que seria feito de Pedro.
“E, quando Herodes o procurou e não o achou, feita inquirição aos guardas, mandou-os justiçar. E, partindo da Judeia para Cesareia ficou ali.” - Actos 12:17-19.
Oh quão graciosamente foi interrompida esta reunião1 de oração em Jerusalém! Que motivo para orações de gratidão e comunhão, quando Pedro apareceu no meio deles! O seu livramento miraculoso da prisão e da morte, e a sua restauração aos seus amigos que oravam, quase no último momento devem ter produzido muitas exclamações de assombro e louvor, e eles devem ter tido muito que lhe contar.
Mas agora não havia tempo para tal comunhão. Herodes e os seus soldados ainda ignoravam o que ocorrera, mas depressa encetariam a busca de Pedro pois, lembremo-nos, aquele era o dia que Herodes tencionava agradar aos Judeus, ao executar Pedro publicamente.
Indicando, por isso, que estava com pressa e que não desejava ser interrompido acenou-lhes para que se calassem, e contou-lhes a história da sua libertação notável, acrescentando: “Anunciai isto a Tiago e aos irmãos”.2 E com isto ele partiu de novo e foi “para outro lugar”, talvez não lhes dizendo mesmo para onde, de forma a eles não poderem ter qualquer informação para dar se fossem questionados pelos soldados de Herodes.
TIAGO O IRMÃO DO SENHOR
Mas porque é que Pedro pediu aos seus amigos para contarem estas coisas a Tiago e aos seus doze irmãos?
Para compreendermos isto devemos ter em mente a posição que Pedro tinha até ali defendido na Igreja em Jerusalém.
Tememos que os clamores infundados feitos a favor de Pedro por uma igreja corrupta visando a promoção das suas próprias ambições, tenha criado em muitas mentes uma relutância em se reconhecer a sua (de Pedro) proeminência existente entre os seguidores do Messias, ou em se reconhecer os seus justos clamores de autoridade sobre eles, e mesmo sobre os outros apóstolos.
Pedro era de longe a pessoa mais distinta e proeminente da Igreja Pentecostal. O Senhor designou-o a ele, não Tiago, como o principal dos apóstolos e entregou-lhe “as chaves do reino dos céus” (Mat. 16:17-19). Daí lemos nos primeiros capítulos dos Actos consistentemente acerca de Pedro e dos outros apóstolos (Actos 1:15; 2:37; 5:29; etc).
Porém agora tudo isto é mudado, pois após a rejeição sangrenta de Israel em relação à oferta do retorno de Cristo para estabelecer o reino prometido, não somente é levantado por Deus um outro apóstolo para introduzir uma nova dispensação, mas Pedro perde o seu lugar de liderança entre os apóstolos e crentes em Jerusalém, para ser substituído pelo Tiago referido na passagem que estamos a considerar.
Este Tiago a quem Pedro envia a narração do sucedido, aqui em Actos 12, não é, lembremo-nos o do famoso trio, Pedro, Tiago e João, uma vez que este último tinha sido recentemente morto (Actos 12:2). Nem era, evidentemente, Tiago filho de Alfeu, pois em parte alguma nós lemos que ele tivesse atingido um lugar de proeminência entre os apóstolos. Este Tiago não era evidentemente um dos doze, de forma alguma, mas “Tiago, o irmão do Senhor” (Ver Pp.55,56)3 de quem leremos algumas vezes tanto em relação a Pedro como a Paulo.
Que este Tiago era um apóstolo apenas num sentido secundário, e não um dos doze, é visto claramente no facto de os doze terem sido escolhidos de entre homens que tinham “seguido” fielmente Cristo durante o Seu ministério terreno (Mat.19:28; Actos 1:21,22), enquanto não foi assim com “Tiago, o irmão do Senhor”.
É-nos dito claramente que os irmãos do Senhor não creram N’Ele durante o tempo do Seu ministério terreno (Sal. 69:8; João 7:5). Na verdade, numa ocasião, quando “os Seus” pensavam que Ele enlouquecera (Marcos 3:21) e O vieram chamar (Vers. 31) Ele declinou mesmo reconhecê-los (Vers.33,34).
Contudo, mais tarde, os Seus irmãos creram n’Ele e nós encontramo-los a orarem com os crentes após a Sua ascensão, e registados separadamente dos apóstolos, incluindo os dois chamados Tiago (Actos 1:13,14).
Assim agora, juntamente com os outros desvios do programa Pentecostal, encontramos o exercício da autoridade na Igreja em Jerusalém a passar gradualmente de Pedro para “Tiago, o irmão do Senhor”, provavelmente por causa do seu relacionamento físico com o Senhor.
Pedro aqui reporta-se a ele (Actos 12:17).
Mais tarde Paulo menciona-o apenas a ele quando presente com Pedro em Jerusalém durante uma das suas primeiras visitas ali. (Gál. 1:19).
Foi Tiago que encerrou o grande concílio em Jerusalém concluindo com as palavras “Pelo que julgo que ... “ ou “Por conseguinte a minha sentença é ... “ (Versão King James) (Actos 15:19). Isto, apesar de Pedro e dos outros apóstolos estarem presentes (Vers. 4,7).
Em Antioquia Pedro foi intimidado por “alguns ... chegados da parte de Tiago”, a fim de se separar dos crentes Gentios, com quem previamente desfrutara de comunhão (Gál. 2:11, 12).
O livro dos Actos não menciona nenhum dos doze depois do capítulo 15. Na última visita de Paulo a Jerusalém nem mesmo Pedro é mencionado. Lemos simplesmente que “Paulo entrou ... em casa de Tiago, e todos os anciãos vieram ali” (Actos 21:18). É assim que “Pedro e os apóstolos” dão finalmente lugar a “Tiago e os anciãos” em Jerusalém.
Como temos dito, a influência crescente de Tiago deveu-se principalmente ao seu relacionamento físico com o Senhor, pois Pedro, não ele, foi designado pelo próprio Senhor como principal dos apóstolos e da Igreja Messiânica. Sem dúvida que essa é a razão porque Paulo chamou aos líderes em Jerusalém: “os que pareciam ser alguma coisa”, e nomeou os três líderes em Jerusalém pela ordem do seu exercício de autoridade: “Tiago, Cefas (Pedro) e João”, denominando-os como aqueles “que eram considerados como as colunas” (Gál. 2:6-9).
Contudo é notável como a despeito de tudo isto tanto Tiago como Pedro, juntamente com João, perceberam a graça dada a Paulo como o apóstolo dos Gentios, e deram a Paulo e a Barnabé a dextra da comunhão, concordando que Paulo e Barnabé deveriam ir aos Gentios enquanto eles, que a princípio tinham sido enviados a “todo o mundo” e “a toda a criatura” (Marcos 16:15) limitariam agora o seu ministério “à circuncisão” (Gál. 2:9). Assim, tanto Pedro, a quem o Senhor tinha escolhido como líder da Igreja Hebraica, como Tiago, que se tinha tornado agora no seu líder actual, se uniram ambos num solene reconhecimento público quanto a Paulo como o apóstolo de Deus para as nações.
PEDRO NÃO É ENCONTRADO
Quando a luz matinal raiou a ausência de Pedro da sua cela causou naturalmente “não pouco alvoroço entre os soldados”, especialmente porque, como soldados Romanos, eles eram responsáveis sob pena das suas vidas em guardá-lo sob custódia até à hora da execução. Porém Pedro não era encontrado em nenhum lado, e os guardas infelizes, depois da “inquirição” (isto é, depois de açoitados) foram eles mesmos executados. Entretanto Herodes “partiu da Judeia para Cesareia, e ficou ali”.4
Contrastes notáveis têm sido observados entre o livramento prisional de Pedro, e o de Paulo uns anos mais tarde em Filipos (Actos 16). Pedro estava a dormir nos instantes precedentes ao seu livramento, enquanto que Paulo e Silas oravam e cantavam. Um anjo libertou Pedro secretamente, enquanto que um tremor de terra abalou e abriu as portas da prisão de Filipos. Pedro foi conduzido para a liberdade a custo das vidas dos carcereiros. Paulo e Silas recusaram fugir e salvaram o carcereiro da morte ao clamarem: “Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos”. Pedro fugiu de Herodes, enquanto que Paulo e Silas saíram escoltados de Filipos pelos magistrados. O livramento de Pedro não produziu nenhuma palavra de salvação para os seus captores, enquanto que o carcereiro de Filipos e a sua casa foram gloriosamente salvos por meio do livramento de Paulo. Do princípio ao fim a história do livramento de Pedro enfatiza a justiça severa associada ao reino, especialmente ao reino rejeitado, enquanto que a de Paulo enfatiza a “graça e verdade” associadas ao “Evangelho da graça de Deus”.
1 Sem dúvida que haviam outros grupos reunidos noutros lares, pois toda a Igreja orava por Pedro sem cessar.
2 A razão porque ele não se dirigiu directamente a Tiago ou aos apóstolos pode ter sido devido aos seus inimigos serem naturalmente inclinados a procurarem-no primeiramente ali.
3 Uma discussão minuciosa sobre a identidade deste Tiago pode ser encontrada no famoso Daily Bible Illustrations (Ilustrações Diárias da Bíblia), na Pp.163, 164 e 171, 172 no capítulo The Apostles and the Early Church (Os apóstolos e a Igreja Primitiva).
4 Até ser mortalmente ferido por Deus.



