Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XX - ACTOS 12:1-11 (Cont.)
O APRISIONAMENTO DE PEDRO
Parece que este Herodes que matou Tiago era Herodes Agripa I, neto de Herodes o grande, que matara as crianças de Belém; sobrinho e cunhado de Herodes Antipas o “tetrarca” da Galileia, que decapitou João Baptista, e irmão de Herodias, que pediu a cabeça de João e viveu em adultério com Herodes Antipas.
Transparece claramente do registo em Actos 12 o facto de o presente Herodes não ter sido menos depravado que os seus familiares reais. O seu tio malévolo e iníquo chamado “raposa” pelo Senhor, poupou a cabeça João Baptista por algum tempo, apenas porque temia os Judeus sobre quem reinava (Mat. 14:3-5). Agora este presente Herodes, não menos malévolo e iníquo, mata Tiago à espada, evidentemente para agradar aos Judeus. E ao ver que agrada aos Judeus, continua deitando mãos também a Pedro (Actos 12:3). Ele pensa que aumentará a sua popularidade como rei ao expor Pedro à angústia e execução públicas.
Assim Herodes capturou-o e aprisionou-o; muito provavelmente para a mesma prisão onde antes tinha sido encarcerado. Pode ser que alguém fique admirado quanto ao facto de em adição ao seu encarceramento numa cela, quatro quaternos1 de soldados terem sido necessários para o guardar, mas provavelmente era bem sabido que na ocasião anterior quando Pedro foi suposto estar na prisão ele foi em vez disso encontrado a pregar no templo, enquanto os servidores que tinham sido enviados a trazerem-no ao tribunal explicaram: “Achámos realmente o cárcere fechado, com toda a segurança, e os guardas que estavam fora, diante das portas, mas, quando abrimos, ninguém achamos dentro” (Actos 5:23).
Desta vez, Herodes queria certificar-se de que nenhum escape seria possível. Ele teria ao mesmo tempo dois guardas junto a Pedro na cela e à porta duas sentinelas a guardarem a prisão. Estas precauções pareciam muito necessárias porque Herodes, querendo certificar-se de que não desagradaria aos Judeus ao profanar uma festa santa, decidira esperar até depois do julgamento de Pedro, “querendo” trazê-lo ao povo “depois da Páscoa”. Notemos bem a nota de esperança no registo: “querendo”.
“Pedro, pois, era guardado na prisão” (Versículo 5).
Duvidamos que a sua experiência lhe trouxesse à mente o orgulho que uma vez manifestara: “Ainda que me seja mister morrer contigo, não te negarei” ... “Por ti darei a minha vida” (Mat. 26:35; João 13:37). Se isso aconteceu, sabemos que ele agora estaria pronto para reparar esse orgulho, pois desde que negara o Seu Mestre algum tempo antes ele dera nobremente conta de si mesmo. Contudo, ele também se pode ter lembrado da predição do Senhor: “ ... Mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras” (João 21:18), e ter-se sentido confiante quanto ao facto de a sua execução ainda não poder ser possível de acontecer.
UMA IGREJA A ORAR
“Pedro, pois, era guardado na prisão; MAS ...” (Versículo 5).
Glorioso “Mas”! Com ele temos uma preciosa lição para nós.
Há ocasiões na experiência do crente quando a perspectiva é tão negra e desesperante que se torna perfeitamente evidente que não há nada a fazer senão clamar directamente e apenas Àquele que tudo controla. Esta foi uma dessas ocasiões. Apelos ao rei iníquo não resolveriam nada nem há qualquer evidência de que os amigos de Pedro tivessem tomado quaisquer medidas para o influenciar a favor de Pedro.
“ ... MAS A IGREJA FAZIA CONTINUA ORAÇÃO POR ELE A DEUS” (Ver. 5).
É verdade que “também” devemos orar “com entendimento” (I Cor. 14:15) e as demonstrações miraculosas da era Pentecostal agora já passaram, mas Deus não está menos interessado do que nós quando clamamos a Ele em situações extremas, nem se encontra com menos poder para nos ajudar em tempo de necessidade, mesmo que Ele escolha ajudar-nos no que poderemos denominar de meios providenciais em vez de pela intervenção directa nas questões humanas.
Mas esperemos: Os amigos de Pedro estão a orar – sem cessar – ao longo da semana pascal. Sem dúvida que oram pela sua libertação embora em sujeição à vontade e sabedoria de Deus eles possam também ter orado para que se fosse necessário que Pedro morresse ele pudesse revelar um testemunho digno.
Contudo a aparente futilidade das suas orações por libertação é impressionantemente salientada no registo ao encontrarmos Pedro:
1. Na “mesma noite” aproximando-se a hora do seu julgamento e execução.
2. “Dormindo”.
3. “Entre dois soldados”.
4. “Ligado com duas cadeias” – provavelmente ligado aos soldados.
5. “E os guardas diante da porta”.
6. “A primeira e segunda guarda da prisão” jazendo adiante (Vers. 10).
7. Encerrado pela principal “porta de ferro”.
Isto diz bem a Pedro que ele poderia dormir em tal ocasião, mas decerto que não acrescentava ao quadro esperança de libertação.
Mas na “mesma noite”, “quando Herodes estava para o fazer ... comparecer”, “um2 anjo do Senhor” entrou na sua cela. Contudo notemos de novo tudo o que esteve envolvido no despertar Pedro do seu sono:
1. “Resplandeceu uma luz na prisão”.
2. “E tocando a Pedro na ilharga, o despertou”.
3. “Dizendo: Levanta-te depressa”.
4. “E caíram-lhe das mãos as cadeias”.
5. “E disse-lhe o anjo: Cinge-te e ata as tuas alparcas”.
6. “Disse-lhe mais: Lança ás costas a tua capa, e segue-me”.
7. “E saindo o seguia. E NÃO SABIA que era real ... mas cuidava que via alguma visão”.
Na verdade, Pedro dormia tão profundamente que não foi antes de terem passado “a primeira e segunda guarda” e terem chegado “à porta de ferro”, que “se lhes abriu por si mesma”, de terem percorrido “uma rua” e do anjo ter desaparecido, que ele acordou verdadeiramente, e disse: “Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o seu anjo, e me livrou da mão de Herodes, e de tudo o que o povo dos Judeus esperava” (Vers. 11).
Pedro foi assim poupado por mais algum tempo. Ele ainda tinha um importante papel a desempenhar nos propósitos de Deus em pôr de parte Israel e em reconhecer Paulo como o apóstolo da nova dispensação.
1 Quatro grupos de quatro cada.
2 Não “o”.



