Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIX - ACTOS 11:27-30

PROFETAS DE JERUSALÉM

     “E naqueles dias desceram profetas de Jerusalém para Antioquia.

     “E levantando-se um deles, por nome Agabo, dava a entender, pelo Espírito que haveria uma grande fome em todo o mundo, e isso aconteceu no tempo de Cláudio César.

     “E os discípulos determinaram mandar, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos que habitavam na Judeia.

     “O que eles com efeito fizeram, enviando-o aos anciãos por mão de Barnabé e de Saulo.” - Actos 11.27-30.

     O facto de os profetas terem sido enviados de Jerusalém a Antioquia e serem  reconhecidos ali, constitui uma indicação clara de que o programa Pentecostal e a autoridade dos doze como representantes do Messias e do Seu reino não tinham cessado imediatamente com a rejeição da oferta que lhes foi feita  em Pentecostes, nem mesmo com o levantamento de Paulo. Mais, os primeiros crentes Gentílicos em Antioquia foram ganhos para Cristo por intermédio dos crentes Judeus dispersos de Jerusalém durante a perseguição que se seguiu à morte de Estevão. Mais ainda, foi a igreja em Jerusalém (Actos 11:22) que enviou Barnabé para se inteirar da situação.

     Contudo, não se deve perder de vista que a razão porque os crentes em Jerusalém enviaram Barnabé a Antioquia foi devido ao facto de ter vindo aos ouvidos deles que os Gentios – não tendo nem a circuncisão nem a lei – tinham confiado em Cristo – naquela cidade. Não é estranho, então, e constitui um passo natural no desenrolar do programa de Deus, o facto de Barnabé ter simplesmente exortado estes crentes Gentios “que permanecessem no Senhor, com propósito de coração” (uma exortação muito vaga), enquanto foi a Tarso buscar Saulo.

     Não se deve deixar de assinalar que esta pequena passagem (Actos 11:27-30) que principia com os crentes de Antioquia a reconhecerem os profetas de Jerusalém termina com os crentes de Jerusalém pelo menos a principiarem a reconhecer a igreja em Antioquia ao receberem o seu apoio. E a transição é perfeitamente natural, pois foi um dos profetas de Jerusalém que predisse a fome que requereria o apoio de Antioquia! E continua a ser esta a tendência nos capítulos seguintes dos Actos.


SOCORRO DE ANTIOQUIA

     Sem dúvida que o leitor já notou que Ágabo predisse uma fome em todo o mundo: “grande fome em todo o mundo (lit. terra habitada)”. Porque é que então eles deveriam ser salientados para ajuda especial? Esta questão merece uma atenção cuidadosa.

     A maioria dos comentadores tem concluído que a acção da Igreja em Antioquia subentende que a fome seria mais severa na Judeia, e que Ágabo deve ter dado a entender isso na sua profecia. Alguns destes mesmos comentadores têm investigado historicamente e descoberto registos de algumas fomes que ocorreram por volta dessa altura e têm avançado com argumentos a fim de provarem que uma dessas fomes foi provavelmente mais agudamente sentida na Judeia, embora não haja plena concórdia quanto a qual delas! Outros comentadores ainda, têm concluído que o termo Ágabo oikoumene significa provavelmente toda a Judeia ou Palestina, neste caso.

     Contudo o facto é que enquanto a palavra Grega ge é usada para denotar simplesmente terra, a palavra oikoumene é usada consistentemente para denotar a terra habitada e nunca um país particular, e muito menos a frase “todo o mundo”2 poderia referir-se a um país particular.

      Mas a questão permanece: Porque é que os crentes em Antioquia resolveram enviar socorro àquele particular país?

     A resposta a esta pergunta é dispensacional.

     Primeiramente deve ser notado que o socorro deveria ser providenciado, não para todas as pessoas da Judeia, mas para “os irmãos que habitavam na Judeia”. Isto não era somente porque era correcto estes crentes em Antioquia cuidarem primeiro dos seus irmãos, mas porque os crentes na Judeia estavam a sentir os efeitos da fome e a suportarem os preços elevados muito mais agudamente que os outros, quer na Judeia quer em qualquer outra parte.

     Estes crentes na Judeia, devemo-nos lembrar, tinham vendido as suas casas e herdades e tinham trazido os rendimentos aos apóstolos para distribuição entre os necessitados, em conformidade com os padrões do reino que eles esperavam ver brevemente estabelecidos na terra. Não apenas alguns, mas todos os que seguiam o Messias tinham feito isto (Actos 2:44,45; 4:34,35) “ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (Actos 4:32). Até Pedro podia dizer com toda a verdade ao coxo no templo: “Não tenho prata nem ouro” (Actos 3:6). Dois, que procuraram unir-se ao grupo enquanto retinham enganosamente parte dos seus rendimentos, foram fulminados com a morte (Actos 5:5,10) “quanto aos outros, ninguém ousava ajuntar-se a eles” (Actos 5:13). Assim foi mantido o programa do reino. Na realidade, mesmo quando parecia que os Hebreus estavam a ser favorecidos em relação aos Gregos no “ministério quotidiano”, os apóstolos agiram imediatamente a fim de que fosse providenciado equitativamente para todos. Acerca dos crentes Pentecostais lemos: “Não havia, pois, entre eles, necessitado algum” (Actos 4:34) e esta condição devia ser mantida pelos apóstolos como uma das bênçãos associadas ao reino que eles esperavam que seria brevemente estabelecido com o retorno do Messias.

     Porém agora a crise abatera-se sobre Israel: A nação recusara a oferta de misericórdia do Cristo ressuscitado e glorificado. Ela ameaçara, ferira e aprisionara os Seus mais altos representantes. Ela apedrejara Estevão e guerreara a Igreja em Jerusalém. Ora, em infinita graça, Deus correspondeu a isso salvando Saulo, o principal blasfemador e perseguidor e salvando os Gentios não obstante a recusa de Israel em se tornar o canal de bênção.

     Mas, apesar de na verdade isto ter sido a revelação dum propósito gracioso, não deve ser esquecido que este novo programa visava a colocação de parte (temporária) de Israel, o adiamento (do ponto de vista humano) do reino Messiânico, e a suspensão das bênçãos reais que os crentes Judaicos já tinham começado a gozar.

     Apesar de a nenhum dos crentes Pentecostais ter faltado, até aqui, fosse o que fosse, eles contudo viram-se agora pela primeira vez privados, ao já terem distribuído os seus bens. E isto era apenas o começo. Ao longo dos anos seguintes, não apenas a igreja em Antioquia, mas “as igrejas da Galácia” (I Cor 16:1-3) “as igrejas da Macedónia” (II Cor 8:1-4) “as igrejas da Acaia” (II Cor 9:2) e talvez outras, incluindo até Roma, uma longa lista de congregações Gentílicas, enviariam apoio material aos “santos pobres ... em Jerusalém” (Rom. 15:26).

     Na verdade, fora um dos acordos específicos entre os líderes das igrejas Judaica e Gentílica no grande concílio de Jerusalém, que os crentes Gentílicos deveriam “lembrar-se dos pobres da igreja Judaica” (Gál. 2:10).3

     Tudo isto indica que o programa do reino estava a ser gradualmente posto de parte e que a nova dispensação já tinha começado a despontar. O leitor cuidadoso notará que os crentes em Antioquia não tinham “todas as coisas em comum”. Eles contribuíram “cada um conforme o que podia”, aos santos necessitados da Judeia. Eles pertenciam à nova dispensação e a contribuição deles estabelece o padrão da nossa contribuição sob a dispensação da graça. Se nós, neste presente século, dispusermos de todos os nossos bens para o bem comum, até nada possuirmos como nosso, estaremos a actuar directamente contra à vontade e programa de Deus para nós, pois o nosso apóstolo (Rom.11:13) escreve pelo Espírito:

     “Mas, se algum não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, NEGOU A FÉ, E É PIOR DO QUE O INFIEL” (I Tim. 5:8).

     Contudo, hoje em dia, poucos crentes, mesmo entre os que clamam: “Atrás a Pentecostes”, são tentados a dispor de todas as suas possessões terrenas, quer para o Senhor, quer para os seus irmãos, sentindo que se o fizessem cedo se envolveriam em problemas. Porém se os crentes nesta economia da graça dessem apenas proporcionalmente “cada um conforme o que pudesse” (Actos 11:29) “conforme a sua prosperidade” (I Cor. 16:2) “segundo o que qualquer tem” (II Cor. 8:12) “não com tristeza, ou por necessidade” (II Cor. 9:7) a obra de Deus continuaria veloz, libertada de carências financeiras, e os próprios contribuintes seriam espiritualmente enriquecidos, pela sua fidelidade, pois é Paulo, não Pedro em Pentecostes, que diz pelo Espírito: “o que semeia pouco, pouco também ceifará ... porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Cor. 9:6,7).

     É verdade que muitos dos servos de Deus se têm tornado ”cobiçosos de torpe ganância”, desobedecendo a I Tim. 3:3 e isto não deve ser indultado, embora talvez constitua uma reacção natural, ainda que pecaminosa, perante a falha dos crentes comprometidos na obra secular em contribuírem com a sua parte financeira. Qualquer que seja a nossa posição financeira na vida, contribuamos dos nossos meios segundo a regra estabelecida hoje em dia para nós pelo Espírito:

     “ ...TAMBÉM ABUNDEIS NESTA GRAÇA.

     “ ..PROVAR A SINCERIDADE DA VOSSA CARIDADE.

     “PORQUE JÁ SABEIS A GRAÇA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO QUE, SENDO RICO, POR AMOR DE VÓS SE FEZ POBRE; PARA QUE PELA SUA POBREZA ENRIQUECESSEIS” (II Cor. 8:7-9).

     Isto é contribuir sob a graça e certamente que é um desvio distinto do programa Pentecostal. E notemos bem: este desvio é primeiramente notado no princípio do ministério de Paulo, em relação com a sua labuta em Antioquia, antes de iniciar a sua primeira grande jornada apostólica ou de escrever a primeira das suas cartas às igrejas.


1 A confiança que os crentes em Antioquia tinham nestes profetas de Jerusalém é logo vista no facto de terem tomado acção imediata em relação à fome iminente que Ágabo predissera.

2
 A mesma frase original é encontrada em Mat. 24:14.

3
 É patente que os líderes Judaicos se referiam aos seus pobres. Eles não teriam tido nenhuma razão em solicitar uma promessa de que a igreja Gentílica suportasse os seus próprios pobres ou os pobres em geral.

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