Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIX - ACTOS 11:19-30 (Cont.)
GREGOS E GREGOS
Todo o estudioso dos Actos deve conhecer a diferença entre Gregos e Gregos. Haviam os Gregos, isto é, os Judeus que viviam, ou que tinham vivido, fora da Palestina entre os Gentios, onde a Língua Grega era falada e a cultura Grega prevalecia, tornando-se assim Gregos, mas sendo no entanto Judeus – Judeus Gregos, e por outro lado os Gregos que eram Gentios. Assim encontramos a primeira classe de Gregos entre os crentes antes da conversão de Saulo, enquanto que a segunda classe não aparece senão depois. Para a primeira classe a palavra que aparece no original é a palavra grega Hellenists que é encontrada duas vezes no princípio dos Actos (6:1; 9:29) e nunca mais depois disso, enquanto que para a segunda classe a palavra grega é Hellenes que não é encontrada no princípio dos Actos mas ocorre doze vezes de Actos 11:20 em diante.
OS CRENTES EM ANTIOQUIA ERAM GREGOS E NÃO JUDEUS GREGOS
Que os crentes em Antioquia eram Gentios e não Judeus Gregos, é amplamente confirmado pelos seguintes factos:
1. A maioria dos textos no Grego usam a palavra “Hellenes” e não a palavra “Hellenists”. A grande maioria das traduções, assim com a grande maioria dos escolásticos em Grego, pelo menos aqueles cujos escritos se encontram à nossa disposição, são favoráveis à tradução por “Gregos” e não “Judeus Gregos”.
2. O contexto imediato exige a tradução por “Gregos”. Se aqueles em questão fossem Judeus Gregos, o que não é o caso, porque é que então os discípulos ainda haviam de se encontrar a ministrar “somente aos Judeus”? Os Judeus Gregos tinham sido há muito incluídos entre os crentes.
De facto, os discípulos que testemunharam aos de Antioquia sem dúvida que eram Judeus Gregos, pois eram “varões de Chipre e Cirene”. Como vimos, os Judeus Gregos foram incluídos entre os crentes de em Actos 6:1 e até em Pentecostes, pois ali os apóstolos ministraram a “Judeus varões zelosos, de todas as nações debaixo do céu”. Mas agora, entre os que tinham pregado a Palavra a mais ninguém senão somente aos Judeus, houve alguns que começaram a pregar Cristo aos Gregos em Antioquia.
3. O contexto mais vasto confirma este ponto de vista. É evidente que algo fora de comum ocorrera, para ao ouvirem o que se passava, os líderes em Jerusalém terem enviado imediatamente Barnabé para tratar do assunto. No fim do registo desta reunião em Antioquia nada é dito que indique que Barnabé e Saulo, como os do vers. 19, ainda ministrassem “somente aos Judeus”, ou que mais tarde alguns Gentios entre eles também tivessem crido. O programa deles diferia do que prevalecia em Jerusalém desde o princípio (Actos 11:29 cf. 4:32). Foi esta igreja que se tornou no primeiro grande centro de evangelismo Gentílico. Foi desta igreja, que Paulo e Barnabé viajaram mais tarde para Jerusalém, a fim de preservarem a liberdade Gentílica da escravidão da lei de Moisés. E significantemente, não foi ninguém dentre eles mas “certos varões que vieram da Judeia” que procuraram trazer estes Gentios para debaixo da lei. E notemos: “Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda CONTRA ELES” (Actos 15:2).
No fim do grande Concílio em Jerusalém os anciãos enviaram cartas “aos irmãos de entre os Gentios que estão em Antioquia, e Síria e Cilícia” (Actos 15:23). E quando Paulo e Barnabé regressaram a Antioquia com as novas ao ouvir a epístola, “A Multidão”, alegrou-se “pela exortação (ou, consolação)” (Actos 15:30,31) indicando que a congregação ali era esmagadoramente Gentílica.
Tudo isto derruba o ponto de vista de que a igreja que foi estabelecida em Antioquia, e à qual Paulo ministrou durante “todo um ano” era constituída por Judeus Gregos, ou por Gregos que falavam Judeu. Isto exclui mesmo a ideia de que a Igreja tivesse principiado como Igreja Judaica Grega e se tivesse tornado predominantemente Gentílica mais tarde.
O conceituado Barnes diz acerca desta passagem:
“Esta palavra (Hellenists), no Novo Testamento, denota usualmente os Judeus residentes em terras estrangeiras, que falavam a língua Grega ...Porém a eles o Evangelho já tinha sido pregado; e neste lugar é evidentemente a intenção de Lucas afirmar que os varões de Chipre e Cirene pregaram aos que não eram Judeus e que assim a conduta deles era distinta da daqueles (Vers. 19) que pregavam somente aos Judeus. É assim manifesto que somos aqui chamados a compreender os Gentios como os que são visados pelos de Chipre e Cirene. Em muitos MSS (manuscritos) a palavra aqui usada é Hellenes, Gregos, em vez de Hellenists.”
Há mais dum século, John Kitto, também um grande escolástico da Bíblia escreveu como se segue, sobre Actos 11:19,20, no seu Daily Bible Readings (Leituras Bíblicas Diárias):
“Mas nos textos correntes, aqueles a quem o Evangelho é pregado no segundo exemplo são descritos como Hellenists e não como Hellenes. Contudo, se fosse esse o caso, a segunda pregação não poderia ter diferido da primeira, e os irmãos de Cirene e de Chipre não teriam feito mais do já feito pelos irmãos de Jerusalém. É assim a opinião dos melhores críticos e comentadores, que a palavra é encontrada em alguns manuscritos muito antigos, nalgumas versões e nos Pais; e tem sido adoptada concordamente na maior parte das edições recentes críticas do texto Grego.”
Vincent, no seu Word Studies in The New Testement (Estudos das Palavras no Novo Testamento) diz:
“Não teria havido nada de notável ou assinalável no facto destes homens pregarem aos Judeus Gregos que tinham ... formado uma grande parte da igreja em Jerusalém ... Notemos, também, o contraste com a declaração no vers. 19, somente aos Judeus. Não existe qualquer contraste entre Judeus e Judeus Gregos, uma vez que os Judeus Gregos estão incluídos no termo geral Judeus.”
O Companion Bible (Companheiro da Bíblia) diz:
“A maioria dos textos contém Hellenes, Gregos. Não haveria nada de estranho em falar a Judeus que falavam Grego.”
OS CRENTES EM ANTIOQUIA E PAULO
Alguns, especialmente entre os que defendem que Cornélio era um prosélito, têm defendido a Versão Autorizada Americana ao usar aqui Judeus Gregos, argumentando que se aqueles em questão eram Gentios, temos Gentios salvos antes e aparte do ministério de Paulo, como o apóstolo dos Gentios.
Contudo, os que reconhecem o facto bíblico de que Cornélio e a sua casa eram Gentios, não podem erguer racionalmente esta objecção. É significante o facto de a casa de Cornélio e destes Gentios em Antioquia terem todos sido salvos após o primeiro passo no novo programa de Deus: a conversão de Saulo de Tarso (Ver I Tim. 1:12-16).
Nesta relação, também é significante o facto de a Igreja em Jerusalém, ao ouvir o que tinha acontecido, ter enviado Barnabé para que investigasse. Certamente que Deus estava nisto, pois Barnabé tinha sido aquele que amparara Paulo quando os outros tinham desconfiado dele no seu primeiro regresso a Jerusalém, como crente em Cristo. É evidente que Barnabé tinha conhecimento da comissão original de Paulo em ir aos Gentios (Actos 9:15,27). Sem dúvida que ele também sabia como, no templo, aparecera novamente a Paulo, ao insistir com ele para que deixasse imediatamente Jerusalém e ao reafirmar o Seu propósito em enviá-lo aos Gentios de longe, pois Barnabé encontrava-se então entre os que “o enviaram a Tarso” (Actos 22:11-21).
Quão natural não é então ler que quando Barnabé tinha chegado a Antioquia e “vira a graça de Deus” “se alegrou” e exortou-os simplesmente “a que permanecessem no Senhor”, enquanto ele partia “para Tarso, a buscar Saulo”, que veio então a Antioquia e ensinou ali “todo um ano” (11:23-26).
Uma vez mais é significante o facto de que foi desta assembleia que Paulo foi enviado juntamente com Barnabé para a sua primeira grande jornada entre os Gentios e de que foi a esta assembleia que ele voltou a fim de relatar os resultados (Actos 13:2,3; 14:26,27).1
Finalmente também é significante o facto de “os discípulos (terem sido) chamados pela primeira vez Cristãos em Antioquia” (Actos 11:26), especialmente porque tantos confundem o Judaísmo de Jerusalém e Pentecostes com o Cristianismo. Este título só é encontrado três vezes no Novo Testamento: aqui em Actos 26:28 e em I Pedro 4:16. Há um facto claro nestas três passagens: que este nome foi atribuído aos crentes por outros. A sua etimologia até é Latina, em vez de Grega, o que pode significar que os Romanos foram os primeiros a aplicar o nome aos que fizeram tanto de Cristo. A referência de Pedro ao nome Cristão, em I Pedro 4:14-16, enfatiza fortemente o facto de que isso definia a rejeição do Ungido de Deus,2 e nós devemo-nos lembrar que esta rejeição de Cristo por aqueles sobre que Ele deveria reinar não foi definida antes de Deus ter respondido ao apedrejamento de Estevão ao levantar Paulo para ir aos Gentios.
Assim, embora, como temos dito, os crentes Judeus de Jerusalém não tivessem nenhuma revelação quanto à inauguração dum novo programa, nem nenhum mandamento para irem aos Gentios enquanto Israel ainda continuava impenitente, Deus deu-lhes um precedente para a sua acção ao enviar Pedro a Cornélio e à sua casa. Certamente que tudo isto ocorreu significantemente após Deus ter manifestado a Sua graça em salvar Paulo; e antes das grandes campanhas de Paulo entre os Gentios, de forma a que a sua proclamação de salvação aos Gentios à parte de Israel pudesse ser mais prontamente reconhecida pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém.
Quão maravilhoso é traçar a mão de Deus no cumprimento dos Seus planos!
1 Embora Antioquia fosse o maior centro de, evangelização Gentílica, nós não o denominamos de “o quartel-general da Igreja Gentílica”. Corinto, Éfeso e Roma também se tornaram em grandes centros de evangelização Gentílica, mas o verdadeiro quartel-general da Igreja Gentílica encontra-se no céu (Fil. 3:20).
2 Cristo significa simplesmente: Ungido.



