Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XVIII - ACTOS 10:36-48

O SERMÃO INTERROMPIDO DE PEDRO

     “A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos);

     “Esta palavra, vós bem sabeis, veio por toda a Judeia começando pela Galileia, depois do baptismo que João pregou;

     “Como Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com Ele.

     “E nós somos testemunhas de todas as coisas que fez, tanto na terra da Judeia como em Jerusalém; ao qual mataram, pendurando-O num madeiro.

     “E Este ressuscitou Deus, ao terceiro dia, e fez que se manifestasse,

     “Não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus antes ordenara, a nós, que comemos e bebemos juntamente com eles, depois que ressuscitou dos mortos

     “E nos mandou pregar ao povo, e testificar que ele é o que por Deus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos.

     “A este dão testemunho todos os profetas, de que todos os que n’Ele crêem receberão o perdão dos pecados pelo Seu nome.

     “E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviram a palavra.

     “E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilhavam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os Gentios.

     “Porque os ouviam falar línguas e magnificar a Deus.

     “Respondeu, então, Pedro: Pode alguém, porventura, recusar a água, para que não sejam baptizados estes, que também receberam, como nós, o Espírito Santo?

     “E mandou que fossem baptizados em nome do Senhor. Então rogaram-lhe que ficasse com eles por alguns dias.” - Actos 10:36-48.

     O elo de ligação entre a profecia e o mistério é claramente visto no sermão de Pedro e na interrupção do mesmo na casa de Cornélio.

     É certo que Pedro não tinha conhecimento do plano de Deus escondido a respeito do Cristo ascendido e glorificado. Mesmo Paulo apenas tinha começado a aprender acerca dele, pois foi-lhe revelado gradualmente desde a sua conversão (Actos 22:14; 26:16; II Cor. 12:1,7). A mensagem de Pedro a esta reunião de Gentios foi estritamente de acordo com a Palavra profética e com a grande comissão que o Senhor lhe deu para levar a cabo.

     Ele principiou com “a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel ... depois do baptismo que João pregou” (Vers. 36,37).

     Pedro enfatizou aqui um facto que é esquecido demasiadas vezes: que João pregou o baptismo (Marcos 1:4; Lucas 3:3) e que ele fez isto em relação à manifestação de Cristo em Israel (cf. João 1:31). Depois continuou com a história do ministério terreno do Senhor “na terra da Judeia como em Jerusalém” (Vers. 38,39) e contou finalmente como eles O mataram pendurando-O num madeiro, mas como Deus O ressuscitou de entre os mortos, e como Ele ordenou aos onze que O proclamassem como juiz tanto dos vivos como dos mortos (Vers. 39,42).

     Certamente que tudo isto concorda com a linha profética e estabelece um contraste impressionante com o Evangelho da graça de Deus de Paulo, pois ao passo que Pedro principiou com o ministério terreno de Cristo, e continuou até à Sua morte ressurreição e designação como juiz, o apóstolo Paulo mais tarde principiou com a morte e ressurreição de Cristo como boas novas para salvação e continuou até à Sua glória à mão direita de Deus como Dispenseiro da graça e Cabeça do Corpo. Pedro, na verdade ao relatar o facto da morte do Senhor, não a ofereceu como meio de salvação, como mais tarde Paulo fez na “pregação da cruz”.

     Contudo, mesmo segundo a profecia e “a grande comissão”, a salvação deveria ser por meio da Fé na pessoa de Cristo.1

Pedro assim continuou a dizer:

     “A ESTE DÃO TESTEMUNHO TODOS OS PROFETAS, DE QUE TODOS OS QUE NELE CRÊEM RECEBERÃO O PERDÃO DOS PECADOS PELO SEU NOME” (Vers. 43).

     Ora esta declaração, apesar de estar em harmonia perfeita com o programa profético, coincide ao mesmo tempo com o mistério guardado em segredo até ser revelado por meio de Paulo, pois em ambos os programas a fé na pessoa de Cristo era básica.

     E Deus aqui interrompeu Pedro:

     “E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviram a palavra” (Ver. 44).

     A maior parte dos ensinadores ensinam que Pedro usou as “chaves do reino”, primeiramente com Israel, em Pentecostes, e depois com os Gentios na casa de Cornélio. Contudo isto não é, nem pode ser confirmado pelas Escrituras. Pedro não abriu a porta a estes Gentios. Deus tirou o caso das suas mãos, ao interromper o seu sermão e ao Ele próprio abrir a porta, enquanto “os da circuncisão” olhavam atónitos.

     É lícito perguntar como é que Pedro teria concluído o seu sermão se não tivesse sido interrompido, uma vez que as Escrituras derramam luz cristalina sobre esta questão.

     Suponhamos que Pedro tivesse continuado com o seu sermão e os seus ouvintes, semelhantemente aos de Pentecostes, tivessem sido convencidos e perguntassem: “Que faremos?” O que é que Pedro teria replicado? Não pode haver senão uma única resposta. Ele não tinha sido enviado, como Paulo, a pregar a fé de Cristo sem as obras, para a salvação. Os que criam sob o seu ministério, mesmo entre os Gentios, deveriam ser “baptizados para remissão de pecados” (cf. Actos 2:38 com Marcos 16:15,16). Porém, antes que Pedro cumprisse isto, e precisamente após a sua declaração acerca da necessidade da fé em Cristo para a salvação, Deus interrompeu o seu sermão e retirou o caso das suas mãos. Pedro defendeu-se assim mais tarde perante os outros apóstolos, dizendo: “Quem era, então, eu, para que pudesse resistir a Deus?” (Actos 11:17).

     Embora, como dissemos, Pedro não tivesse conhecimento do propósito secreto que Deus tinha em mente, encontramos aqui significantemente mais desvios claros do programa da profecia e da “grande comissão”, após a conversão de Saulo.

Já salientámos que Pedro foi enviado a estes Gentios, não sob a “grande comissão”, mas por uma comissão especial, não porque Israel tivesse aceite agora o Messias, mas a despeito do facto de Israel O rejeitar obstinadamente.

     E agora Cornélio e a sua casa são salvos, e recebem o Espírito; novamente, não porque a nação tivesse sido salva primeiro; não como o passo seguinte no programa da profecia e da “grande comissão”, mas por intervenção divina, por graça divina. Estes Gentios foram salvos e receberam o Espírito sem primeiramente terem sido baptizados – um outro desvio claro da “grande comissão” – contudo Deus fê-lo, e por razões próprias e boas muito Suas que mais tarde seriam reveladas por meio do Apóstolo Paulo.

     Certamente que os da circuncisão ficaram atónitos, com o facto de estes Gentios terem recebido o dom do Espírito Santo, mas mais ainda, porque isto ocorreu sem primeiramente eles terem sido baptizados. Certamente que isto era um desvio daquilo que Pedro pregou em Pentecostes (Actos 2:38). Daí a resposta de Pedro:

     “Pode alguém porventura, recusar a água, para que não sejam baptizados estes, que também receberam, como nós, o Espírito Santo?” (Vers. 47).

     Aqui reside ainda um outro desvio do programa da “grande comissão” que deveremos notar cuidadosamente. Os Gentios, daqui em diante e durante algum tempo depois, sob o ministério de Paulo, seriam baptizados, uma vez que Deus ainda não tinha colocado Israel e o seu programa de parte total e oficialmente, mas o baptismo na água nunca seria requerido aos Gentios para a salvação, como fora sob a “grande comissão” (Marcos 16:16-18; Actos 2:38). Paulo assim, podia desafiar os salvos sob o seu ministério:

     “Recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?” (Gál.3:2).

     Tanto quanto as Escrituras nos revelam os doze não tornaram a ministrar aos Gentios. Assim o ministério de Pedro, o principal dos doze, a esta única casa Gentílica, acontecendo como aconteceu, após o apedrejamento de Estevão e depois da conversão de Saulo, foi designado por Deus para levar Pedro e a Igreja em Jerusalém a reconhecerem publicamente e a sancionarem o subsequente ministério de Paulo entre os Gentios quando mais tarde o caso fosse levantado (Ver Actos 15:7-11, 22-29).


1 Apesar do verdadeiro crente nessa altura ter que se “arrepender e ser baptizado para remissão de pecados” de acordo com as instruções divinas (Marcos 16:16; Actos 2:38).

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