Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XVIII - ACTOS 10:30-35
A CONVERSÃO DE CORNÉLIO E DA SUA CASA
CORNÉLIO CONTA A HISTÓRIA
“E disse Cornélio: Há quatro dias estava eu em jejum até esta hora, orando em minha casa à hora nona.
“E eis que, diante de mim, se apresentou um varão com vestes resplandecentes, e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas estão em memória diante de Deus.
“Envia, pois, a Jope, e manda chamar Simão, o que tem por sobrenome Pedro: este está em casa de Simão, o curtidor, junto ao mar, e ele vindo, te falará.
“E logo mandei chamar-te, e bem fizeste em vir. Agora, pois, estamos todos presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto por Deus te é mandado.
“E, abrindo Pedro a boca disse: Reconheço, na verdade, que Deus não faz distinção de pessoas.
“Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e obra o que é justo.” - Actos 10:30-35.
Cornélio relata agora a Pedro e a seus companheiros, as circunstâncias e detalhes da sua visão.
Quatro dias antes ele tinha estado em jejum até “esta hora”, isto é, a mesma hora do dia em que ele então estava a falar; não “esta hora” do quarto dia, como alguns supõem . “Esta hora” era aparentemente “a hora nona” pois foi então que o anjo lhe apareceu (Vers. 30). Ora, a hora nona, ou as três horas da tarde era “a hora da oração” em Israel (3:1) e é significante que isto aconteceu quando o anjo apareceu, informando-o de que a sua oração fora ouvida e que as suas esmolas estavam em memória diante de Deus.
Nós já provámos pelas Escrituras que nesta altura Cornélio ainda não estava “salvo” (11:14) que ele ainda não tinha recebido a “remissão dos pecados” (10:43) ou a “vida” eterna (11:18) mas as suas orações e obras indicavam um desejo de conhecer o Deus verdadeiro, e Deus agora revelou-lhe, no tempo da oração de Israel, que Ele responderia a esse desejo.
A profunda sinceridade do desejo de Cornélio em conhecer Deus e a Sua vontade é expressa nas suas palavras:
“Agora pois estamos todos presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto por Deus te é mandado”.
DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS
E Pedro agora faz uma declaração cheia de significado:
“Reconheço, na verdade, que Deus não faz distinção de pessoas” (Vers. 34).
Notemos bem que esta é a mesma pessoa que, escassos anos antes fora instruída: “Não ireis pelo caminho das Gentes” (Mat. 10:5); que ouvira o Seu Mestre dizer: “Eu não fui enviado senão ás ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mat. 15:24) e “Deixa primeiro saciar os filhos” (Marcos 7:27). É a mesma que mais tarde fora vista a pregar o arrependimento e a remissão de pecados a todas as nações juntamente com os outros apóstolos “começando por Jerusalém” (Lucas 24:47), a mesma que clamou à casa de Israel: “Vós sois os filhos ... do concerto ... PRIMEIRO O ENVIOU A VÓS ...” (Actos 3:25,26). Contudo agora diz: “Mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo” (Actos 10:28) e “Reconheço na verdade, que Deus não faz distinção de pessoas” (Vers. 34). Pedro não sabia que estava a ser introduzido um novo programa. Ele não sabia que Deus estava a concluir todos em incredulidade para que a todos pudesse revelar misericórdia. Ele não proclamou o Evangelho da graça de Deus a Cornélio e à sua casa. Porém ele sabia que Deus, de acordo com a Sua própria vontade soberana, instruíra-o a ir aos Gentios , “nada duvidando”, e tinha daí aprendido que na verdade Deus não fazia acepção de pessoas.
Não é significante que isto tenha ocorrido precisamente após a conversão de Saulo, uma vez que seria ele que agora seria enviado como o apóstolo da graça a todo o mundo, e isto deveria ser reconhecido pelos apóstolos que tinham sido enviados a proclamar o Evangelho do reino a todo o mundo começando com Israel?
É nas epístolas de Paulo que aprendemos a razão de Deus, que “não faz acepção de pessoas”, ter sempre diferenciado Judeus e Gentios. Ele diferenciou-os simplesmente para mostrar que não há qualquer diferença. Ele diferenciou dispensacionalmente para mostrar que não existe qualquer diferença essencial. Ele erigiu uma “parede de separação” entre eles para demostrar que essa parede deveria ser derrubada; que um, não é melhor que o outro.
Mas continuemos com a declaração de Pedro:
“Reconheço na verdade, que Deus não faz distinção de pessoas”;
“MAS QUE LHE É AGRADÁVEL AQUELE QUE, EM QUALQUER NAÇÃO, O TEME E OBRA O QUE É JUSTO” (Actos 10:34,35).
Nós já vimos que esta passagem não pode significar que Cornélio já estivesse salvo. Essas palavras devem ser analisadas à luz do ver.28 e do resto do contexto. Cornélio foi simplesmente aceite no sentido de que não deveria ser mais considerado “imundo”. A resposta à sua oração na hora de oração de Israel, indicava que agora Deus o aceitava no mesmo sentido que Ele aceitou o Seu povo do concerto. Isto indicava que ele estava tão salvo como todos os Israelitas e, lembremo-nos que mesmo a própria circuncisão não salvava.
O caso de Cornélio deveria ser considerado á luz de duas importantes passagens dos escritos de Paulo:
“ ... Aquele que se aproxima de Deus, CREIA QUE ELE EXISTE, E QUE É GALARDOADOR DOS QUE O BUSCAM” (Heb. 11:6).
“Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão.
“SE, POIS, A INCIRCUNCISÃO GUARDAR OS PRECEITOS DA LEI, PORVENTURA A INCIRCUNCISÃO NÃO SERÁ REPUTADA COMO A CIRCUNCISÃO?” (Rom. 2:25,26).
Cornélio cria sinceramente que o Deus de Israel era o Deus verdadeiro.1 Ele buscou-O diligentemente, como as suas orações e piedade e obras indicavam. Assim Deus respondeu ao seu desejo e revelou-se-lhe.
As obras de Cornélio não tomavam o lugar de Cristo, mas de Moisés (10:35,36). Suponhamos que Cornélio, depois de ouvir Cristo, escolhia descansar nas suas próprias obras. Certamente que se perderia, pois a obediência à lei moral em si foi sempre tão impotente para salvar como a circuncisão e os sacrifícios. Testemunha isto os casos de Nicodemos, do jovem rico e de Saulo de Tarso.
Cornélio foi assim aceite, não como salvo, mas para a salvação (11:14). E Pedro agora começa a dizer-lhe as palavras por meio das quais ele e toda a sua casa poderiam ser salvos.
1 Embora isto não o salvasse (Tiago 2:19). Era meramente um pré-requisito para a salvação (Hebreus 11:6).



