Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XVII - ACTOS 10:24-29
PEDRO NA CASA DE CORNÉLIO
“E no dia imediato, chegaram a Cesareia. E Cornélio os estava esperando, tendo já convidado os seus parentes amigos mais íntimos.
“E aconteceu que, entrando Pedro, saiu Cornélio a recebê-lo, e, prostrando-se aos seus pés, o adorou.
“Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, que eu também sou homem.
“E, falando com ele, entrou, e achou muitos que ali se haviam ajuntado.
“E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito, a um varão judeu, ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo.
“Pelo que, sendo chamado, vim sem contradizer. Pergunto, pois: por que razão mandastes chamar-me?” - Actos 10:24-29.
Quando Pedro e os seus amigos entraram em Cesareia Cornélio esperava-os, tendo reunido os seus parentes e amigos íntimos. É provável que ele tivesse ido à porta, ou à entrada exterior, para receber Pedro, pois lemos que ele encontrou Pedro quando este estava “entrando” e também nos é dito que Pedro entrou então com Cornélio e encontrou um grupo razoável reunido.
Cornélio, ao cair aos pés de Pedro e ao adorá-lo, revelou a sua falta de conhecimento acerca do verdadeiro Deus e dos Seus mandamentos (Ex. 20:1-3) contudo Pedro ergueu-o imediatamente negando-se em aceitar a sua adoração e protestando, afirmando que ele também não era senão um mero homem. Os que negam a deidade de Cristo deveriam tomar nota que por contraste muitos caíram aos pés do Senhor e O adoraram durante o Seu ministério terreno, e Ele aceitou a sua adoração (Mat. 8:2; 9:18; 14:33; 15:25; 18:26; 28:9; 28:17; etc).
É um testemunho significante a profunda sinceridade de Cornélio, e o respeito e afeição que os seus parentes lhe tinham, para que “muitos” se juntassem para ouvir as palavras por meio das quais ele e toda a sua casa seriam salvos (Actos 11:14). Também deve ter tocado o coração de Pedro ver tantos Gentios reunidos para ouvir a Palavra de Deus.
Antes mesmo de inquirir porque é que Cornélio o mandara chamar, Pedro lembrou os seus ouvintes que era “ilícito” um judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros, mas explicou como Deus lhe mostrara que agora não deveria chamar a nenhum homem comum ou imundo.
Em que sentido isto era exactamente “ilícito” procuraremos agora determinar.
Sabemos que a mulher Samaritana ficou até surpreendida pelo Senhor, um Judeu de nascimento, lhe ter falado (João 4:9). Também sabemos que os judeus se refrearam de entrar na audiência de Pilatos, não acontecesse contaminarem-se antes da Páscoa (João 18:28). Também sabemos que os outros apóstolos chamaram Pedro para que este prestasse contas por comunicar com “varões incircuncisos” e comer com eles (Actos 11:3). Apesar de tudo isto não conhecemos nenhum mandamento na lei de Moisés que proibisse os Judeus de ajuntarem-se ou chegarem-se a estrangeiros.
Na verdade os Israelitas estavam proibidos de comer comidas “imundas” que os Gentios comiam (Lev. 20:25). Também estavam proibidos de fazerem concertos com os Gentios ou de se casarem com eles (Deut. 7:2,3; Esdras 8:2) e assim foi mantida uma separação distinta entre eles, porém não conhecemos nenhuma injunção explícita proibindo-os de se ajuntarem ou chegarem a estrangeiros, nem mesmo de negociarem com eles. Na verdade, como já vimos, os Israelitas foram especificamente instruídos a tratarem benignamente os Gentios que viessem a eles e a tratá-los como aos nascidos no seu meio (Lev. 19:33,34). Certamente que Cornélio um homem temente a Deus e vivendo como vivia, na Palestina, estava abrangido por esta espécie de tratamento com base na lei de Moisés.
Em que sentido, então, tinha sido “ilícito” para Pedro visitar estes Gentios e porque é que os seus companheiros apóstolos chamam-no a justificar a sua acção.
Diremos que a tradição Judaica levara-os a todos a serem contra os Gentios, até mesmo ao ponto de impedirem a salvação deles? Se dissermos que sim, esquecemo-nos da fome de Pedro e da oração no terraço da sua casa em Jope, e como Deus respondeu por uma visão dando-lhe permissão para comer comida imunda. Já vimos em Actos 3:19-26 que Pedro anelava que a salvação fosse aos Gentios e que houvesse regozijo genuíno entre os crentes Judaicos quando os Gentios fossem salvos (Actos 11:18,23; 15:3).
Cremos que a chave para este problema é encontrada na primeira comissão do Senhor dada aos seus doze apóstolos (Mat. 10:1-7). Os apóstolos ali foram instruídos especificamente:
“NÃO IREIS PELO CAMINHO DAS GENTES, NEM ENTRAREIS EM CIDADE DE SAMARITANOS” (Mat. 10:5).
Embora o Senhor tivesse enviado apenas os doze, certamente que esta regra se aplicava a qualquer Judeu, mesmo que os que eram indiferentes ou antagónicos aos Seus clamores não a reconhecessem.
Como sabemos, o próprio Senhor também se manteve separado dos Gentios durante o Seu ministério terreno. Ele ajudou um homem e uma mulher Gentios, mas eles vieram a Ele pedir ajuda, e pelo menos no último caso Ele tornou muito claro que Ele não tinha sido enviado “senão ás ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mat. 15:24).
Sabemos que o Senhor não seguiu este curso por falta de amor ou misericórdia pelos Gentios, mas porque reconhecia o plano do concerto e profecia divinos em enviar salvação aos Gentios por meio da nação de Israel remida (Gén. 22:17,18; Zac. 8:13,23, etc). Tanto quanto o programa revelado de Deus diz respeito, a nação de Israel deve ser salva primeiro antes da salvação ser enviada aos Gentios. Assim o Senhor disse à mulher Gentia acima referida : “Deixa primeiro saciar os filhos” (Marcos 7:27).
O Senhor não mudou isto após a Sua ressurreição, pois sob a chamada “grande comissão” os apóstolos foram instruídos especificamente a principiarem o seu ministério com a nação de Israel (Lucas 24:47; Actos 1:8). Isto certamente que aconteceu com a premissa de que agora Israel aceitaria Cristo, e que então a salvação podia ser enviada aos Gentios. Pedro torna claro em Actos 3:25,26 que a nação de Israel deve ser salva primeiro, de modo a que a salvação possa fluir através dela para os Gentios.
Em face disto, é natural que Pedro tivesse considerado “ilícito” ir aos Gentios pois a nação de Israel ainda não tinha sido salva. Para dizer melhor Israel tinha declarado guerra a Cristo (Actos 8:1-5).
Contudo agora o programa profético seria interrompido pela dispensação da graça de Deus. Em graça infinita, Deus já propusera salvar Saulo, o líder da rebelião, tendo em vista enviá-lo aos Gentios, face à rebelião obstinada de Israel. A fim de abrir o caminho para isto e a fim de proporcionar o reconhecimento do subsequente ministério de Paulo pelos doze, Deus enviara agora Pedro aos Gentios, mesmo apesar da obstinação de Israel em não se arrepender.
Pedro tinha estado então, em perfeita harmonia com a vontade do Seu Mestre, e continuava ainda em perfeita harmonia com ela ao ser enviado agora aos Gentios. Notemos cuidadosamente a fraseologia exacta desta declaração em Actos 10:28:
“ ... não é lícito, a um varão Judeu, ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; MAS Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo”.
Desde a conversão de Saulo até ao fim dos Actos encontramos vários “mas” significantes.
Como é que Deus havia de mostrar agora a Pedro que agora deveria ir àqueles Gentios, mesmo apesar dos seus esforços para com Israel não terem sido bem sucedidos? Seria abrindo os seus olhos em relação à verdade do Velho Testamento? Seria pela chamada “grande comissão”? Não, seria por uma visão especial.
Contudo não confundamos isto com a revelação do mistério a Paulo. Não foi dito a Pedro que haveria mudança no programa. Ele não foi instruído a continuar a ir aos Gentios. Ele simplesmente foi instruído a ir a esta única casa e, tanto quanto nos revelam as Escrituras, não temos nenhum registo dele a ministrar novamente aos Gentios. De facto encontramo-lo a dar as mãos a Paulo, concordando solenemente em limitar o seu próprio ministério à circuncisão, enquanto Paulo iria aos Gentios.
É evidente no registo, que Pedro não compreendia o que Deus estava a fazer. Ele simplesmente recebeu ordem para ir “nada duvidando” (Actos 10:20) e quando ministrou a Cornélio e à sua casa, Deus retirou o caso das suas mãos, de modo que “os da circuncisão ficaram atónitos” quando os Gentios receberam o Espírito Santo (Actos 10:44,45). Ao justificar a sua acção perante os outros apóstolos Pedro só pôde dizer: “Quem era, então eu, para que pudesse resistir a Deus?” (Actos 11:17).
Pedro, então, não recebeu a revelação da nova dispensação que ia ser introduzida nem usou “as chaves do reino” nesta ocasião, mas recebeu uma visão e instruções para ir apenas a esta casa Gentílica, e foi na base deste incidente que mais tarde a Igreja em Jerusalém reconheceu o ministério de Paulo entre os Gentios. Como poderiam eles objectar se o próprio líder designado deles fora enviado a um grupo de Gentios à parte da conversão de Israel?



