Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XVII - ACTOS 10:9-16
A VISÃO DE PEDRO
“E, no dia seguinte, indo eles seu caminho, e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao Terraço, para orar, quase à hora sexta.
“E, tendo fome, quis comer; e, enquanto lho preparavam, sobreveio-lhe um arrebatamento de sentidos.
“E viu o céu aberto, e que descia um vaso, como se fosse um grande lençol, atado pelas quatro pontas, e vindo para a terra.
“No qual havia de todos os animais, quadrúpedes e répteis, da terra, e aves do céu.
“E foi-lhe dirigida uma voz: Levanta-te, Pedro, mata e come.
“Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum ou imunda.
“E, segunda vez, lhe disse a voz: Não faças tu comum ao que Deus purificou.
“E aconteceu isto por três vezes; e o vaso tornou a recolher-se ao céu.” - Actos 10:9-16.
A FOME DE PEDRO
Quando os mensageiros de Cornélio estavam a chegar a Jope, Deus preparou Pedro para os receber duma forma admirável.
Era cerca do meio-dia quando Pedro foi ao terraço orar. Tendo fome, teria comido, mas a refeição que lhe preparavam ainda não estava pronta. Foi assim que ele foi arrebatado e teve a visão do lençol e recebeu permissão para comer a comida imunda contida nele.
Quanto à visão não somos deixados em dúvida quanto ao seu significado. Os animais imundos representavam os Gentios. Os Judeus, o “tesouro peculiar” de Deus, tinham considerado há muito os Gentios como “comuns” e “imundos”. A lei Mosaica tinha erguido um “muro de separação” entre eles, e a única maneira de um Gentio poder encontrar verdadeira aceitação entre o povo de Israel era submeter-se à circuncisão e à lei como prosélitos ao Judaísmo (Isa. 56:6,7). Contudo isto agora estava a ser mudado e os Gentios tementes a Deus deveriam ser recebidos como tais.
Contudo na interpretação da experiência de Pedro no terraço é geralmente esquecido um detalhe importante. Trata-se da fome de Pedro. Ela é tão significante quanto a permissão do “mata e come”.
A fome de Pedro lembra-nos uma ocasião semelhante quando O próprio Senhor teve fome, ao entrar em Jerusalém.1 Nessa ocasião Ele viu uma figueira com nada a não ser folhas nos seus ramos e amaldiçoou a árvore de tal modo que ela secou (Mat. 21:18-20).
Certamente que toda a história é simbólica. A figueira é um símbolo familiar da nação de Israel e, como aconteceu com João antes d’Ele, tinha-se afadigado e tinha fome de fruto entre o povo favorecido (Mat. 3:8; Lucas 8:14,15; etc). A maldição da figueira estéril falava da maldição que pairava sobre Israel devido à sua recusa em se arrepender e em se voltar para Cristo.
Esta fome de coração por fruto em Israel é mais enfatizada em Lucas 13, onde o Senhor usa a figueira numa das suas parábolas (Vers. 6-9). Aqui o fruto é procurado em vão durante três anos (representando claramente os três anos de ministério do Senhor). Contudo nesta parábola descobrimos que a maldição e corte da figueira não ocorreu imediatamente, pois por meio da intercessão do “vinhateiro” da vinha a árvore seria deixada apenas “este ano” e então, se ainda não desse fruto, seria cortada. Isto indica claramente que o juízo sobre Israel seria adiado, e a misericórdia estendida.
E assim foi. O juízo foi adiado; foi prolongada misericórdia por meio da intercessão do Senhor na cruz (Luc. 23:34). Assim foi dada a Israel uma outra oportunidade para dar fruto quando Pedro e os crentes Pentecostais procuraram trazer a nação aos pés do Messias.
E agora Pedro, no terraço da sua casa em Jope, também está faminto – “muito faminto” – e a sua fome física, como a do Senhor, é simbólica. Não devemos esquecer-nos do facto de que Pedro tinha ido ao terraço orar. A sua fome física não era senão simbólica duma profunda fome de coração.
As Escrituras indicam claramente que Pedro anelava pelo arrependimento e restauração de Israel de modo que a nação se pudesse tornar o canal de benção para o mundo. Ele estava ávido que a “grande comissão” pudesse atingir o ponto em que as boas novas do reino pudessem ser enviadas a todas as nações. Ele estava faminto de que os Gentios pudessem também ouvir o evangelho. Isto é claro na sua declaração a Israel, registada em Actos 3:25,26:
“Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com os nossos pais, dizendo a Abraão: NA TUA DESCENDÊNCIA SERÃO BENDITAS TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA.
“Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades.”
É suposto algumas vezes que os apóstolos eram contra a salvação dos Gentios, mas a passagem acima indica precisamente o contrário. Na realidade, em Actos 11:18; 11:23 e 15:3 descobrimos que havia genuíno regozijo entre os crentes Judaicos quando os Gentios eram salvos.
Parece bastante natural Pedro, encontrando-se com “muita fome”, querer ver estas comidas proibidas na sua visão e querer ouvir a voz instruindo-o a comer livremente, mas tanto a sua fome como a permissão para comer são simbólicas de coisas espirituais. A oração de Pedro estava a ser respondida e os Gentios seriam agora recebidos por Deus a despeito da recusa de Israel em ser uma bênção para eles.
1 Ver o opúsculo do escritor: DUAS PESSOAS FAMINTAS.



