Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XVII - ACTOS 10:1-8
PEDRO ENVIADO A UMA CASA GENTÍLICA
A VISÃO DE CORNÉLIO
“E havia em Cesareia um varão, por nome Cornélio, centurião da corte chamada italiana.
“Piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, a qual fazia muitas esmolas ao povo, e de contínuo orava a Deus.
“Este, quase à hora nona do dia, viu claramente, numa visão, um anjo de Deus, que se dirigia para ele e dizia: Cornélio.
“O qual, fixando os olhos nele, e muito atemorizado, disse: Que é Senhor? E disse-lhe: As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus;
“Agora, pois, envia homens a Jope, e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro.
“Este está com um certo Simão, curtidor, que tem a sua casa junto ao mar. Ele te dirá o que deves fazer.
“E, retirando-se o anjo que lhe falava, chamou dois dos seus criados, e um piedoso soldado dos que estavam ao seu serviço.
“E, havendo-lhes contado tudo, os enviou a Jope.” - Actos 10:1-8.
UM ELO DE LIGAÇÃO
A história de Cornélio, embora cheia de interesse e refrigério para o estudante das Escrituras, é contudo uma das de mais difícil compreensão no livro dos Actos. Muitos dos seus detalhes parecem paradoxais, para dizer o mínimo. Sem dúvida que isso se deve ao elo de ligação entre os ministérios de Pedro e Paulo.
O FUNDO E CARÁCTER DE CORNÉLIO
Cornélio era um Romano. O seu nome é latino e lemos que ele era um centurião da Corte Italiana (constituída por recrutas ou voluntários de Itália). Ele pode muito bem ter sido membro da grande Cornélia Gens (Casa de Cornélia) uma das casas mais distintas de Roma, pois Juliano o Apóstata designara-o como uma das poucas pessoas distintas (entre os Romanos) a tornar-se um seguidor de Jesus Cristo.
A primeira coisa que lemos acerca de Cornélio é que era “piedoso” ou “devoto”, e “temente a Deus” (Vers. 2). E isto não é dito em qualquer sentido superficial, pois somos informados mais adiante que ele “fazia muitas esmolas ao povo, e de contínuo orava a Deus”, que era “varão justo” e de “bom testemunho de toda a nação dos Judeus”, e que “jejuava” no desejo que tinha em conhecer a verdade (Vers. 2,22,30).
À luz disto não é de estranhar que “toda a sua casa” (família, incluindo sem dúvida os seus servos) temesse a Deus juntamente com ele. Na verdade, até lemos que um “soldado dos que estavam ao seu serviço” também era “piedoso” (Vers. 2,7) e concluímos, à luz do precedente, que este soldado ou se tornou temente a Deus sob a influência de Cornélio ou foi escolhido por Cornélio porque era temente a Deus. Em qualquer caso temos uma outra evidência da consistência da piedade de Cornélio.
A CONDIÇÃO ESPIRITUAL DE CORNÉLIO
Isto significa que Cornélio já estava salvo; que recebera a remissão de pecados e possuía já a vida eterna? Nós cremos que não, pelas seguintes razões:
1. Foi em resposta às suas orações que ele foi instruído a mandar chamar Pedro para que este lhe mostrasse o caminho da salvação (Vers. 4-6; 11:14).
2. A declaração: “Ele te dirá o que deves fazer” (Vers. 6)1 é análoga à “Que faremos?” de Actos 2:37 e à “Que é necessário que eu faça?” de Actos 16:30. Em cada um dos casos foi dito aos inquiridores como podiam ser salvos.
3. Foi prometido a Cornélio: “O qual (Pedro) te dirá palavras com que te SALVES tu e toda a tua casa” (11:14).
4. Pedro instruiu Cornélio e a sua casa quanto à “remissão de pecados” (10:43).
5. Quando Pedro contou o incidente aos seus irmãos em Jerusalém eles exclamaram: “Na verdade até aos Gentios deu Deus o arrependimento para a vida” (11:18).
Não é verdade, como alguns têm suposto, que Cornélio fosse um prosélito, pelo menos no sentido bíblico do termo. Muito se escreve em comentários acerca de “prosélitos de justiça” e “prosélitos da porta”, e geralmente Cornélio é tido como um “prosélito da porta”, mas as Escrituras apenas conhecem uma espécie de prosélitos – aqueles que se submetiam à circuncisão e à lei (Isa. 56:6,7; cf. Actos 15:1). Se Cornélio tivesse sido um prosélito no sentido bíblico do termo não teria havido nada de assinalável no ministério de Pedro a ele, pois ele ministrara a muitos prosélitos em Pentecostes (Actos 2:10).
Assim, tanto quanto nos revelam as Escrituras, Cornélio não era um prosélito. Pedro chama-o “estrangeiro” (10:28). E não somente Pedro, mas os seus seis companheiros, o escritor dos Actos e “os apóstolos e irmãos na Judeia” consideraram-no todos um “Gentio” (10:45; 11:1). Ele tinha sido olhado como um “imundo” (10:28). Os Judeus consideravam “ilegal” e “ilícito” ter comunhão com tais indivíduos (10:28). E quando Pedro foi a ele, foi chamado a ter comunhão e a comer com “varões incircuncisos” (11:3).
O que é que então Pedro quer dizer com a declaração: “Reconheço, na verdade, que Deus não faz distinção de pessoas, mas o que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e obra o que é justo?” (10:34,35).
Nós cremos que quer dizer que tais pessoas eram aceites no sentido de não serem “separadas” do favor de Deus por causa da sua incircuncisão (Ver Gen. 17:14). Pedro tinha pensado que somente os Judeus eram aceites e que os Gentios eram imundos, mas Deus estava agora a mostrar que Ele não fazia acepção de pessoas. Cornélio era assim “aceite” no mesmo sentido porque os tais Gentios eram agora “purificados”, isto é, não eram mais considerados religiosamente imundos (10:15,28; cf. Rom. 2:25,26). Foi neste sentido que Cornélio foi “aceite”, pois nunca em qualquer dispensação a mera reverência por Deus muito menos apenas obras e carácter, comunicou vida eterna. Mais adiante o registo torna claro que ele não estava “salvo” e não tinha “vida” nem “a remissão de pecados” (Actos 10:43; 11:14,18). Assim ele não foi aceite no mesmo sentido que nós agora somos “aceites no Amado” (Ef. 1:6).
A RESPOSTA DE DEUS À NECESSIDADE DE CORNÉLIO
Nós não negamos que Deus tivesse estado a operar no coração de Cornélio, nem negamos que as suas muitas orações indicavam que ele desejava conhecer verdadeiramente a Deus. É tocante ouvi-lo explicar a Pedro como ele passava tempo considerável a jejuar (10:30) e aprender que em resposta ao seu fervoroso desejo Deus instruiu-o a mandar Pedro para lhe dizer palavras com que ele e a sua casa fossem salvos (11:13,14).
Esta instrução veio por meio duma visão em que ele viu “claramente ... quase à hora nona do dia ... um anjo de Deus” (10:3), que lhe assegurou que as suas orações e esmolas não tinham sido esquecidas2 e que ele devia mandar chamar Pedro para lhe dizer o que fazer (10:4-6).
Também é tocante ver, que mal o anjo deixara Cornélio, ele chamou dois dos seus servos e um soldado temente a Deus, dizendo-lhes o que sucedera, e enviou-os sem perda de tempo a Jope para trazerem Pedro.
1 Embora esta frase não apareça em todos os textos.
2 Isto indica que (1) embora as orações e as obras em si não pudessem salvar (2) se elas exprimissem um verdadeiro desejo de conhecer a Deus, Deus responderia a esse desejo.



