Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XVI - ACTOS 9:23-31 (Cont.)

O REGRESSO A TARSO

     Mas a despeito disto a vida de Saulo depressa foi exposta novamente ao perigo. Ao falar ousadamente no nome do Senhor Jesus, ele despertou a inimizade dos Gregos e eles quiseram-no matar. Os irmãos, estando conscientes da seriedade da situação trouxeram-no então para Cesareia e enviaram-no de regresso a Tarso. Uma vez que Cesareia era perto do mar, deduzimos que ele foi enviado de barco que era a rota mais curta.

     Não foi somente a palavra deles que o induziu a deixar Jerusalém, pois o Senhor apareceu-lhe novamente, no templo dizendo:

     “Dá-te pressa, e sai apressadamente de Jerusalém; porque não receberão o teu testemunho acerca de Mim” (Actos 22:18).

     Com o coração no seu povo que ele antes conduzira na perseguição a Cristo, Saulo no principio argumentou que certamente eles escutá-lo-iam, mas o Senhor conhecia melhor.

     “E disse-me: Vai, porque hei-de enviar-te aos Gentios de longe” (Actos 21:22).

     O Senhor instruíra especificamente os doze a começarem o seu ministério em Jerusalém, contudo não foi assim com Paulo, pois Deus agora tinha encerrado, Israel juntamente com os Gentios, em incredulidade.

     Saulo assim é enviado a casa, aparentemente rejeitado, e passou-se uma considerável porção de tempo até o seu amigo, Barnabé, vir a Tarso tomá-lo e introduzi-lo num ministério frutuoso em Antioquia.

     Saulo permanece assim “desconhecido de vista das igrejas da Judeia” (Gál. 1:22). E agora que ele se foi, a Igreja na Palestina goza descanso e é multiplicada, havendo contudo ansiedade pelo rumor da sua presença em Jerusalém causado pelos crentes.


A ESTADIA DE SAULO EM TARSO

     A viagem de Saulo para Tarso nesta altura tem sido denominada “período de retiro”, mas é difícil crer que uma pessoa do seu temperamento e com as suas experiências fosse ali exactamente para retiro.

     Na altura da sua conversão mal ele recuperara a sua vista “logo nas sinagogas de Damasco pregava a Jesus” (Actos 9:20) e, mais tarde, tendo acabado de escapar com vida para Jerusalém, um lugar até mais perigoso, “falou ousadamente no nome do Senhor Jesus” (vers. 29). Na verdade toda a sua vida como crente foi caracterizada por um zelo intensíssimo a fim de tornar Cristo conhecido.

     Em Gál. 1:21, referindo-se ao mesmo período da sua vida, ele diz: “Depois fui para as partes da Síria e da Cilícia.” Então pode muito bem ser que Tarso fosse a sua base de operações para pregar Cristo na Síria e Cilícia. De facto parece haver uma evidência considerável de ter sido esse o caso.

     Em Actos 15:23 lemos acerca da comunicação enviada pela Igreja em Jerusalém aos "irmãos dentre os Gentios que estão em Antioquia, e Síria e Cilícia.” Em Actos 5.41 também nos é dito que depois de Paulo se ter separado de Barnabé ele “passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas”.

     Como e quando é que apareceram crentes Gentílicos na Síria e Cilícia? Quem é que fundou as igrejas ali?

     Na resposta a esta questão deve ser observado primeiro que nem Paulo nem os crentes Judaicos da Judeia podiam ter conduzido esses Gentios a Cristo antes da conversão de Cornélio, pois de acordo com os testemunhos de Pedro e Tiago em Actos 5:7,14, Cornélio e os da sua casa foram os primeiros Gentios a “ouvirem a palavra de Evangelho e crerem”.

     Estiveram homens da Cilícia em Jerusalém durante o ministério de Estevão ali (Actos 6:9) mas esses não podiam ter trazido Cristo à Cilícia pois eles próprios rejeitaram o testemunho de Estevão e ajudaram a matá-lo.

     Os dispersos pela “perseguição que se levantou por causa de Estevão” dificilmente poderiam ter trazido Cristo aos Gentios deste território, pois é-nos dito claramente que eles “caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos Judeus. E ... alguns entrando em Antioquia falaram aos Gregos, anunciando o Senhor Jesus” (Actos 11:19,20). Assim os crentes dispersos o mais longe que atingiram foi Antioquia, mas não chegaram à Síria muito menos à Cilícia. Além disso Antioquia é designada a única cidade onde eles se aventuraram a pregar Cristo aos Gentios nesse altura.

     Certamente que foi a conversão dos Gentios em Antioquia que trouxe Saulo ali, e ali ele ministrou durante “um ano” (Actos 11:26). Nós não queríamos excluir a possibilidade de ele ter evangelizado a Síria e a Cilícia durante esse ano, mas o registo parece limitar de novo o seu ministério a Antioquia durante todo esse período, pois está escrito: “todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente” (Actos 11:26). Paulo não podia ter fundado essas igrejas durante a sua primeira jornada apostólica, porque o seu itinerário encontra-se resumido para nós no registo, e não lemos ali que ele fosse à Síria ou à Cilícia.

     É verdade que Paulo pode ter enviado evangelistas à Síria e Cilícia durante o ano que ele passou em Antioquia, mas na ausência de qualquer declaração para esse feito parece ser mais provável essas igrejas terem sido fundadas por Paulo durante o chamado “período de retiro” em Tarso. Na verdade, a declaração em Actos 15:41 de que “ele passou pela Síria e Cilicía, confirmando as igrejas” quer parecer indicar que essas tinham sido igrejas fundadas por ele.1


1 Nós não defendemos o ponto de vista de que o ministério Gentílico de Paulo não principiou antes de Actos 13.

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