O Menino da Mata e o Seu Cão Piloto (II)

     Não perca esta história. Conte-a às crianças que conhece. Todos os pais, todos os jovens, todas as crianças - todas as pessoas - devem lê-la. No fim perceberá porquê. Ela será contada aqui em dois episódios.

Primeiro episódio:
O Menino da Mata e o Seu Cão Piloto (I)

Continuação já a seguir:

     À maneira que a noite se aproximava, o bosque tomava-se cada vez mais escuro, os pássaros tinham cessado de cantar, e foram repousar sobre os raminhos das árvores; só os grilos chiavam entre as folhas secas, e grandes morcegos começavam a voar, batendo as asas por entre os ramos por cima da cabeça de Guilherme, cuja imaginação se ocupava com a ideia de ver como passaria a noite, e onde se poderia livrar das feras, porque já tinha perdido todas as suas esperanças de que seus irmãos voltassem. Ele procurava uma árvore aonde pudesse trepar, porque não podia subir a uma que fosse muito alta, por ser pequeno e depois de algum tempo encontrou uma a que empreendeu subir; e entre os ramos da qual procurou segurar-se, receando, contudo, não poder estar acordado toda a noite, ainda que não se atrevia a dormir com medo de cair.

     Pouco depois escureceu muito, levantou-se um vento que soprava horrivelmente por entre as árvores do bosque. Mas ainda pior do que o vento era o uivar de um lobo que ele ouvia que lhe faz bater o coração de susto e sentir-se todo trémulo desde os pés à cabeça. O medo, contudo, produziu o devido efeito, não o fez gritar, mas excitou-o a orar. Pediu ao Pai celeste que o não desamparasse neste momento de perturbação, e a sua oração foi feita, como antes, em nome de Aquele Salvador para quem seu pai, o pobre homem da mata, nos últimos dias da sua vida tinha tido tanto trabalho em guiar o seu inexperiente coração.

     A árvore a que Guilherme tinha trepado ficava justamente defronte de uma das quatro estradas de que antes falei; e enquanto orava, descobriu de repente uma luz semelhante à de uma vela ou fogueira, que parecia sair do fundo desta estrada ou caminho. Isto era sinal de que havia alguém perto dali que talvez dele tivesse compaixão.

     Não hesitou um só momento; mas, elevando seu coração em agradecimento a Deus, desceu imediatamente da árvore, e correu para o lugar onde tinha avistado a luz; mas depois de estar em baixo já não a via; contudo, lembrado da direcção em que ela aparecera, começou a correr com toda a força para lá, porque temia muito os lobos de que no bosque abundavam.

     O caminho que ele seguia era bastante desigual, fazendo umas vezes subir muito, outras vezes descer; depois de ter andado por meia hora e ter chegado a uma eminência favorável, descobriu outra vez a luz, que parecia mais clara do que antes, o que serviu de grande consolação, e, ainda que não cessasse de correr, ergueu o coração em agradecimento ao céu; perdeu, contudo, quase imediatamente de vista a luz, por ser caminho em descida para um vale, ou lugar profundo.

     Quando ia a correr para o vale, passaram algumas nuvens e descobriu-se a lua. Não era a lua cheia: era uma linda lua nova, que parecia um belo crescente, de prata, elevando-se por cima dos bosques, e cuja consoladora claridade lhe fez descobrir uma corrente de água que passava através do vale, e que o encheu de receio, por não saber que profundidade ou largura teria a água nem como poderia atravessar para a outra banda. Assim mesmo continuou a correr para aquele lado, até que lhe começaram a doer os pés excessivamente.

     Aqui teve um susto ainda mais terrível, porque quando ia correndo, ouvia atrás de si um estrépito de pés semelhante ao caminhar de uma fera, e um palpitar que supôs ser o de um lobo. Cada vez se aproximava mais, até que por fim o pobre Guilherme, cheio de medo, e não podendo correr mais caiu estendido no chão, julgando que imediatamente ia ser despedaçado. Então o animal chegou ao pé dele e pôs-lhe a cabeça tão perto da face que Guilherme sentiu respirar, julgando, o atemorizado menino, no momento em que o pressentiu deitar a língua de fora, que ele ia começar a devorá-lo. Mas em lugar de o morder ou ferir, começou a lambê-lo e a fazer soar um ladrar de alegria pelo que Guilherme conheceu ser o seu fiel Piloto, que tinha arrebentado a corda com que estava amarrado em casa, vindo todo o caminho por entre a mata em busca do seu donozinho.

     Oh! que alegria não sentiu o menino quando viu, em vez de um inimigo, o seu único amigo na terra, o seu querido Piloto! Imediatamente se levantou e o abraçou pelo pescoço; entretanto o pobre cão saltava em roda dele, fazendo-lhe meiguices para mostrar a sua alegria.

     Lembrando-se Guilherme, finalmente, de que ainda estava no bosque num lugar de grande perigo, continuou a correr o mais depressa que podia, até chegar à água que antes mencionei, onde ficou suspenso por não saber a altura da mesma; mas ouvindo uivar pouco distante um lobo, meteu-se a ela e intentou atravessá-la; porém a força da corrente fez-lhe faltar os pés de repente, e decerto se teria afogado se o seu fiel Piloto o não agarrasse e trouxesse em segurança para o lado oposto.

     Guilherme sentiu o seu peito cheio de gratidão pelo seu fiel cão, e principalmente por «Aquele» que lhe tinha enviado um tal amigo, mas, como não era tempo para demoras, sacudiu de si a água conforme pôde e começou a subir a primeira eminência, seguido de Piloto, que ia sempre chegado a ele. Passaram então as nuvens outra vez por diante da lua, que a escureceram de todo sentindo-se Guilherme, não obstante isso, consolado com a presença de um amigo como Piloto.

     Assim prosseguiram ambos e tinham quase chegado ao cume do monte quando Guilherme viu reluzir no escuro, pouco distante de si, dois olhos de algum animal terrível, e ouviu um uivo semelhante ao de lobo, que o fez parar pondo-se Piloto diante dele e começando a ladrar enraivecido, até que Guilherme viu mover os olhos, e pressentiu saltar a fera sobre Piloto, havendo por alguns minutos um espantoso barulho e horrível combate entre o fiel cão Piloto e o lobo, porque, na verdade, este animal era um lobo que estava na estrada à espera da presa.

     Retumbavam por todo o bosque os gritos dos animais furiosos, e Guilherme, sem querer deixar Piloto, ainda que incapaz de o ajudar, continuava de joelhos, levantando as mãos e os olhos ao céu, por que sabia muito bem que se o Piloto sucumbisse também ele seria vítima.

     Durante alguns terríveis minutos não sabia Guilherme qual seria vencedor mas por fim o lobo fugiu, a uivar, e Piloto voltou logo para junto do seu amo, a quem puxou pela roupa, como quem queria persuadi-lo a apressar-se a sair dali.

     Então Guilherme continuou a correr, e Piloto com ele, até chegarem ao cume do monte, quando oh! que linda vista descobriu, a menos de cem passos, uma cabana dentro de um jardim, porque a claridade que saía pela janela era tão forte que até se viam as grades e a cancelinha do jardim. Guilherme deu um grito de alegria, e, descendo uma ladeira que ia ter à cancela, que ele abriu num momento e tornou a fechar, depois dele e Piloto terem entrado, começou a bater à porta da cabana, sendo tamanha a sua impaciência e medo de que outro lobo o seguisse, que bateu três vezes sem dar tempo a que lhe respondessem. 

     Enfim ouviu dentro a voz de uma mulher perguntando:

     — Quem está aí?

     — Um malfadado menino, respondeu Guilherme, que se perdeu no bosque, e que teria sido morto por um lobo se o seu fiel cão o não salvasse.

     — Entra, pois, entra, disse a velha, abrindo a porta. Entra infeliz menino, tu e o teu cão sois ambos bem-vindos.

     Depois de aberta a porta, viu Guilherme uma velha já curvada com o peso dos anos, trajando um belo vestido de algodão azul e uma coifa branca na cabeça, tendo a casa tão asseada como ela mesma.

     Havia no lar uma grande fogueira, a mesma que no bosque tinha avistado o malfadado Guilherme, diante da qual estava uma cadeira de braços e uma mesa pequena de três pés, com uma Bíblia (que Guilherme ainda não sabia naquele tempo que livro era, mas que depois veio a saber) aberta em cima, e um gato pardo, já velho, ressonando ao pé do lume. Havia ao canto da casa uma confortável e asseada cama, e pela parede muitas prateleiras cheias de magnífica loiça de estanho.  

     — Entra, meu pequenino perdido, disse a velha, entra, já; que felizmente aqui chegaste. 

     Depois dele e Piloto entrarem, cerrou a porta da cabana.

     Logo que Guilherme viu a porta fechada, e se achou a salvo dos lobos, pôs-se de joelhos e agradeceu a Deus o ter escapado da morte.

     Depois, voltando-se para Piloto:

     — Oh meu Piloto! meu querido Piloto, disse ele, duas vezes me tens salvo da morte! Se não fosses tu, a estas horas já eu estaria comido pelos lobos.

     Enquanto beijava e agradecia a Piloto, descobriu que ele tinha sido ferido num lado pelo lobo, do que o fiel cão se não queixou até ver fora de perigo o seu donozinho, o qual logo que viu a ferida começou a chorar amargamente e a pedir à velha que lhe desse alguma coisa com que curasse o pobre cão.

     Não chores, meu menino, disse a velha, nós não lhe podemos dar remédio à ferida; por isso deixa-lo lambê-la, que eu vou fazer-lhe uma boa cama ao pé do lume e dar-lhe alguma coisa de comer e beber, e ele brevemente sarará.

     Então foi buscar uma pele de carneiro, que pôs ao pé do lume e apontou a Piloto que se fosse deitar nela, e depois foi à dispensa, de onde trouxe alguma comida e um alguidar com água, que pôs junto dele. O pobre cão, como estava muito esfaimado e sequioso, por ter passado sem comer alguns dias, comeu e bebeu, e, depois de lamber a ferida, deitou-se a dormir.

     — Agora meu menino, disse a velha, que tens o cão sossegado (porque ela não pôde conseguir que Guilherme lhe desse atenção enquanto Piloto não foi tratado), diz-me: — Não tinhas no bosque outro amigo senão o teu cão?

     — Não, não tinha outro, respondeu o menino.

     — Pois bem, meu menino, faz a diligência por descansar; nesta casa estás agora em segurança. Amanhã me dirás quem és, e donde vens, que agora vou dar-te alguma coisa de comer, mas primeiro hei-de lavar os teus cansados pezinhos e enxugar-te a roupa para ires para a cama.

     Guilherme não pôde suster as lágrimas quando a velha lhe falou tão cordialmente.

     — Porque choras, menino? perguntou ela.

     — Choro considerando a bondade de Deus para comigo, respondeu ele. Há bem pouco tempo que pensava ser despedaçado pelas feras, e agora, junto de vós, julgo-me muito feliz.

     —Pobre menino, disse a velha, se eu te puder fazer feliz, tu o serás. E beijou-lhe a carinha toda molhada.

     Então foi pôr ao lume algum leite com pão partido dentro, e enquanto ele aquecia, despiu Guilherme da roupa molhada, que pôs a secar para o outro dia; e, depois de o limpar da lama e do pó e metê-lo na cama, trouxe-lhe o leite quente com sopas, que lhe deu a comer por suas mãos.

     — Não posso dormir sem primeiro dar graças a Deus, disse Guilherme, e sem vos beijar, porque sois tão minha amiga como meu pai era.

     — E já não tens pai? perguntou a velha.

     — Não, disse Guilherme, porque já morreu. Tenho seis irmãos mas eles não gostam de mim, e depois que meu pai faleceu trouxeram-me três dias de caminho pelos bosques dentro, e a noite passada, enquanto eu dormia, deixaram-me só para ser comido pelos lobos; porém Deus teve compaixão de mim. Trouxe-nos para junto de vós, e agora serei vosso filho, e amar-vos-ei tanto quanto amava meu pai.

     — E serás meu filho, disse a velha. Hei-de amar-te muito, e serviremos ambos a Deus, porque deves amar muito a Deus, depois de veres quanto Ele tem obrado a teu respeito.

     — Meu pai antes de morrer, ensinou-me a amar a Deus, respondeu Guilherme, mas nunca pôde persuadir meus irmãos a prestar-lhe atenção, quando lhes queria ensinar alguma coisa com respeito a Deus.

     Então Guilherme contou à velha muitas coisas que se tinham passado antes da morte de seu pai: o que ele tinha dito a respeito da sua vida passada, e como se tinha arrependido de seus pecados e morrido com confiança no seu Redentor.

     A velha tremia a cada palavra que Guilherme pronunciava, e viu-se obrigada a sentar-se na cama, junto da qual estava de pé, porque começou a desconfiar de que o pai de Guilherme fosse aquele seu próprio filho que lhe havia fugido havia muitos anos, e do qual desde então nunca mais tinha tido notícias. Ela esteve sem falar por alguns minutos, e depois disse:

     — Diz-me: como se chamava teu pai?

     — António da Silva, respondeu Guilherme.

     — Oh! disse a velha, juntando as mãos uma à outra, é ele mesmo. António da Silva era meu filho! O meu único filho! E morreu ele arrependido dos seus pecados e com confiança no Salvador? Então as orações que por ele fiz foram ouvidas. E és tu seu filho? És tu meu próprio neto? Foi pela benigna Providência que tu vieste procurar abrigo em casa de tua pobre e velha avó.

     Então abraçou-o pelo pescoço e choraram ambos de alegria.

     — Na verdade, na verdade, disse Guilherme, logo que pôde falar, este dia é milagroso! Devemos antes dar graças a Deus. E trouxeram-me meus irmãos tão longe para que eu pudesse encontrar minha avó! De aqui em diante hei-de gostar de Piloto mais do que nunca, porque jamais chegaria aqui se ele me não tivesse salvo da água e combatido aquele terrível lobo.

     Como Guilherme estava muito cansado, logo adormeceu; mas a avó, cujo repleto coração apenas lhe permitia cerrar os olhos, passou a maior parte da noite a orar, agradecendo a Deus por seu filho, que tantas horas de desgosto lhe havia causado, ter morrido na fé, e pelo seu querido netinho lhe ter aparecido dum modo tão maravilhoso. Além disso pediu a Deus que mudasse os corações dos outros netos mais velhos, daqueles perversos que tão cruelmente trataram seu irmãozinho mais novo.

     Guilherme continuou a viver com a sua avó até que se fez homem, e fazia tudo quanto estava ao seu alcance para torná-la feliz. Tomou a seu cargo o tratar das cabras e aves, e trabalhar no jardim: e ela ensinou-o a ler a Bíblia e a escrever. Eles tiveram grande cuidado com Piloto enquanto foi vivo e, depois que morreu. Guilherme enterrou-o no jardim.

     Guilherme vivia feliz com sua avó, porque ela tinha-o educado no temor de Deus, e enquanto pequeno castigava-o quando era teimoso.

     Ela costumava dizer muitas vezes:

     — Eu amava teu pai tão perdidamente que nunca o castiguei, por isso Deus me castigou; porém hei-de amar-te, meu querido neto, com um amor mais prudente, e não deixarei de castigar-te quando mereceres.

     Depois que Guilherme cresceu, agradeceu à sua avó o bom ensino que lhe havia dado, passando felizmente os seus dias em diligente trabalho, e aproveitando as noites a ler o livro de Deus e a orarem ambos; até que . enfim morreu a piedosa velha.

     Deixou por sua morte a casa e tudo que possuía a Guilherme que andou muitos meses de luto por ela, e que, desgostando-se de viver solitário, escolheu uma mulher temente a Deus, e Deus abençoou-o com diversos filhos, que educou no caminho da santidade.

     Teria Guilherme uns quarenta e tantos anos de idade quando, numa linda tarde de verão, estando assentado à porta com sua mulher e filhos em volta de si, e sua filha mais velha a ler a Bíblia que tinha pertencido à sua defunta avó, saíram do lado do bosque seis homens, cujos pálidos semblantes indicavam miséria, sofrimento e privações, com uns sacos velhos de coiro aos ombros; que pareciam estar vazios, sem sapatos nem meias, pendendo dos seus ombros esfarrapadas camisas, e pararam à entrada do jardim de Guilherme a pedir um bocado de pão.

     — Nós somos pobres miseráveis, disseram eles. Há muitos dias que temos passado sem outro sustento mais do que frutas silvestres e muitas noites que não temos descanso, com medo dos lobos.

     — Devo compadecer-me de vós, disse Guilherme, porque em criança passei um dia inteiro, e parte de uma noite, sozinho naquele bosque e seria comido por aqueles terríveis animais se o meu fiel cão, que está sepultado no jardim, não combatesse por mim e não me salvasse.
     Durante o tempo que Guilherme falava, olhavam os homens uns para os outros.

     — Mas pareceis estar cansados e com fome, continuou Guilherme. Assentai-vos sobre a erva, e depressa vos daremos de comer.

     A mulher de Guilherme entrou em casa e preparou uma terrina de caldo, dentro da qual deitou algumas sopas de pão de trigo e deu-a a um dos filhos para levá-la aos homens.

     Aquela pobre gente, meio tonta e esfarrapada, recebeu agradecida o caldo, que comeu com sofreguidão; depois levantaram-se e, baixando a cabeça diante de Guilherme, pediram-lhe que os deixasse dormir, aquela noite, no curral das cabras.

     — Porque, disseram eles, há muitas noites que não temos tido um lugar de segurança para repousar, e estamos tão fatigados e desfalecidos de vigiar os lobos que somos como aqueles que estão às portas da morte.

     — Eu tenho, disse Guilherme, um celeiro pequeno onde guardo o feno para as minhas cabras, que pode servir para dormirdes, e nós vos daremos cobertores; entretanto podeis assentar-vos e estar à vossa vontade.

     Os homens ficaram muito agradecidos; e Guilherme abriu-lhes a cancela para eles entrarem para o jardim, onde, assentando-se em volta deles sobre a verde erva, começou a conversação com eles, enquanto sua mulher e filhos continuavam no seu trabalho.

     — De onde vindes? disse Guilherme, para onde destinais ir amanhã? Mostrais ter feito grande jornada e estar numa condição muito desprezível. Alguns de vós parecem estar doentes e pareceis homens que fendes sofrido muito.

     — Senhor, respondeu um deles, que aparentava ser o mais velho, nós éramos rachadores que vivíamos no bosque quase três dias de jornada distante deste lugar; mas caindo há alguns anos no desagrado do rei, a nossa cabana foi queimada, tiraram-nos tudo sendo metidos numa enxovia, onde estivemos muitos anos e onde arruinámos totalmente a nossa saúde, de sorte que quando nos soltaram estávamos incapazes de trabalhar; e não tendo amigo algum, temos andado errantes de lugar em lugar, sofrendo todas as privações, e passando muitas vezes dias inteiros sem comer.

     —Receio, disse Guilherme, que cometesses algum crime que ofendessem rei. 

     — Sim, senhor, respondeu o mais velho, o nosso crime era roubar veados; contudo, desejávamos agora viver com honra, e levar melhor vida; mas na nossa vizinhança ninguém quer saber de nós, e não podemos juntar dinheiro, nem ao menos para comprar um machado para cortar lenha, porque então seguiríamos o nosso antigo modo de vida, e faríamos toda a diligência para ganhar o nosso sustento, ainda que estamos realmente reduzidos a um tal estado de fraqueza que pouco poderíamos fazer.

     — Mas, disse Guilherme, cujo coração começava a comover-se por estes infelizes e a inclinar-se muito para eles, não tendes nenhuns parentes na vossa terra? Pertenceis todos a uma família?

     — Não, não temos mais parentes, respondeu o mesmo: somos todos irmãos filhos dos mesmos pais. Nosso pai era rachador de lenha, chamava-se António da Silva.

     — E não tínheis um irmãozinho?—perguntou Guilherme, levantando-se e chegando-se para eles.

     Os homens olharam uns para os outros com terror, e não sabiam que responder.

     — Eu sou esse irmãozinho! disse Guilherme. Deus livrou-me da morte e trouxe-me a esta casa, onde achei minha avó ainda viva, que me serviu de mãe, e aqui tenho desde então vivido sempre em paz e abundância. Nada receeis, meus irmãos; de boamente vos perdoo, como espero que Deus me há-de perdoar; não me fizestes mal algum, e vejo que a Providência vos trouxe aqui para socorrer-vos e consolar-vos. Jamais sofrereis necessidades.

     Os irmãos de Guilherme não puderam responder-lhe mas lançaram-se a seus: pés derramando lágrimas de arrependimento.

     Guilherme quis levantá-los, mas eles não consentiram sem que primeiro lhes perdoasse.
     — Nunca mais prosperamos desde que vos deixámos no bosque, disseram eles; nossa vida, desde aquele dia, tem sido cheia de aflições, ainda que passámos alguns anos depois em dissolução, confusão e pecado.

     Guilherme persuadiu-os a levantarem-se, e certificou-os de que ele de boamente lhes perdoava, pedindo-lhes encarecidamente que recorressem a Deus para alcançarem perdão por intercessão de seu Filho amado.

       No dia seguinte começou Guilherme e seus filhos a construir uma cabana junto à sua, para seus irmãos e nessa obra eles ajudaram quanto lhes foi possível; e, depois de acabada, guarneceu-a de camas para se deitarem, e de peles de ovelhas para se cobrirem. Guilherme deu a cada um uma faca e uma colher, um banco de pau, e deu-lhes também uma mesa e mais alguns trastes de casa, e sua mulher e filhas lhes deram algum vestuário grosseiro, fiado por elas mesmas.

     Guilherme foi tão generoso que deu um machado a cada um, que os habilitou a sustentarem-se do seu trabalho a cortar lenha, sem serem pesados a seu irmão, ainda que ele constantemente os supria com diversas coisas da sua própria casa.

     Porém as inumeráveis fadigas a que Guilherme se deu para guiar-lhes as almas para Deus, excederam, sem dúvida, o cuidado que ele tinha em suprir as suas precisões temporais; todos os dias lhes lia a Bíblia da sua avó, e parece que não ouviam ler debalde a Palavra de Deus, porque se fizeram muito humildes, lamentando diariamente seus pecados, até que enfim morreram esperançados no perdão pelo amor do seu Salvador.

     Guilherme e sua mulher ainda viveram muitos anos depois da morte de seus irmãos, e tiveram a satisfação de verem os filhos de seus filhos crescerem no Santo amor de Deus.

     Agora, meus queridos meninos, cumpridos seriam meus votos se este exemplo vos servisse de máxima, e oxalá que por ele aprendêsseis a fazer com que Deus seja vosso amigo. «Porque os que O bendizem herdarão a terra, mas os que O maldizem perecerão».

 FIM

 LEMBRA-TE DO TEU CRIADOR NOS DIAS DA TUA MOCIDADE, ANTES QUE VENHAM OS MAUS DIAS
E CHEGUEM OS ANOS DOS QUAIS VENHAS A DIZER: NÃO TENHO NELES CONTENTAMENTO.
ECL 12:1

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