Uma panorâmica geral de Eclesiastes

O livro de Eclesiastes descreve a busca de Salomão pelo significado da vida, pelo seu próprio intelecto independente e à parte da revelação divina. A sua conclusão foi que a vida é vaidade e tão fútil quanto perseguir o vento.
Sabemos que o livro foi escrito por Salomão porque ele foi o único filho de David que foi rei em Jerusalém, 1:1. Nós não sabemos que período da sua vida ele está a descrever.
A chave do livro é a expressão "debaixo do sol". Ocorre 29 vezes. Salomão tenta resolver o enigma da vida pela sua própria sabedoria e pelas suas próprias observações. As suas conclusões são as mesmas que nós também poderíamos esboçar se não tivéssemos uma Bíblia.
Duas expressões confirmam que o livro representa a sabedoria do homem debaixo do sol. Em 3:18, Salomão disse no seu coração que os homens são como animais. Ele disse isso no seu coração. Ele está a falar da observação pessoal e não da sabedoria divina. Depois, em 3:21, ele disse: “Quem adverte que o fôlego dos filhos dos homens sobe para cima, e que o fôlego dos animais desce para baixo da terra?” Isto não é revelação divina, mas ignorância humana. Ele diz que ninguém sabe. No entanto, sabemos o que acontece no momento da morte, porque temos a Bíblia.
Se este livro contém nada mais do que sabedoria humana, porque é que Deus permitiu que fosse incluído nas Escrituras? O seu propósito é salvar-nos de enveredar pelo mesmo caminho triste de frustração, pessimismo e falta de sentido. Se o homem mais sábio e mais rico não conseguiu encontrar satisfação "debaixo do sol", que hipótese teremos nós?
Porque as conclusões são "debaixo do sol", algumas delas são verdadeiras, algumas são parcialmente verdadeiras e outras não são verdadeiras. Algumas são verdadeiras, como por exemplo: “Melhor é a boa fama do que o melhor unguento”, 7:1a; “Pois não há um homem justo que faça o bem e não peca”, 7:20. Alguns são apenas parcialmente verdadeiros, como por exemplo: “Melhor é ... o dia da morte, do que o dia do nascimento de alguém”, 7:1b. Isto só é verdade se a pessoa for crente. Alguns não são verdadeiros, como por exemplo: “a terra para sempre permanece” 1:4; “a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma”, 3:19; “os mortos não sabem coisa nenhuma”, 9:5; “Não sejas demasiadamente justo”, 7:16. Isto não é um bom conselho, Deus nunca diria tal coisa. Pelo contrário, Ele diz: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis”, 1 João 2:1. Por outras palavras, não pequeis de forma alguma.
O facto de haver inverdades no livro não afeta a sua inspiração. A inspiração da palavra sagrada não garante a veracidade do que o diabo diz, Gén. 3:4-5, ou do que o homem diz pela sua própria sabedoria. Deus disse a Elifaz, um dos amigos de Jó: “vós não falastes de Mim o que era reto como o Meu servo Jó”, Jó 42:8. No entanto, as palavras de Elifaz estão na Bíblia. O Senhor dá um registo fiel do que é dito e feito, e esse registo é inspirado, mesmo que registe alguns dos erros do homem. Ele queria que essas coisas estivessem na Palavra para nossa instrução e correção.
Salomão usa Elohim para o nome de Deus nestes doze capítulos; nunca o nome Jeová. Qualquer um pode saber que existe um Elohim, isto é, o Poderosíssimo. Porém o nome Jeová fala de Deus numa relação de concerto com o homem. Um tolo pode saber que existe Elohim, mas apenas um crente pode conhecê-Lo como Jeová.
O rei tentou encontrar satisfação na educação, prazer, materialismo, riqueza, música, filosofia, estatuto e sexo, 1:17-2:11, mas concluiu que a vida é sem sentido e fútil. O argumento é que, se os mais ricos e mais sábios não conseguiram encontrar satisfação nessas coisas, que hipótese teremos nós? “porque que fará o homem que seguir ao rei?” 2:12.
No capítulo 3:1-8, ele listou 28 atividades da vida contraditórias (14+14). Normalmente, o segundo membro de cada par cancela o primeiro. Catorze menos catorze é igual a zero.
Isso parece implicar que a vida é um grande zero. O rei concluiu que quando se trata de morrer, o homem não tem vantagem sobre um animal. Todos eles vão para o túmulo, 3:18-22. Acumular riquezas é loucura; quando um homem morre, ele deixa tudo, talvez para um filho tolo. Como o filho não trabalhou arduamente por aquilo, então ele sai e desperdiça.
Misturadas com algumas palavras de sabedoria, há muitas outras expressões de pessimismo. O esforço da vida simplesmente não vale a pena.
O rei cobre a maior parte do espectro da vida humana. Ele aborda as principais questões que afligem a humanidade e apresenta as suas próprias respostas. Porque os caminhos e obras de Deus são inescrutáveis, a melhor filosofia da vida é ter um bom tempo enquanto se pode. Salomão lamenta a injustiça, a maldade e as desigualdades. O espírito competitivo é vaidade. Religião que é insincera é vaidade. O desejo insaciável por mais é vaidade. Tudo é vaidade.
Salomão alguma vez ficou acima do sol neste livro? A resposta a esta questão não é peremptória. Não há acordo entre os estudiosos da Palavra de Deus. Eu, porém, não acho que ele tenha ficado.
O seu conselho no encerramento aos jovens para se lembrarem do seu Criador é reforçado por uma descrição clássica da velhice, com as suas múltiplas enfermidades, 12:1-7. É uma obra-prima da literatura simbólica. Jesus resumiu a mensagem de Eclesiastes quando disse: "Qualquer que beber desta água [o mundo] tornará a ter sede", João 4:13. Somente Deus pode preencher o vácuo do coração humano. O caminho da realização está na elevação acima do sol, onde Cristo está sentado à direita de Deus.
- William MacDonald



