Apocalipse Capítulo 1:1-10
Estudos no Livro do ApocalipsePor Paul M. Sadler
“Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo; o qual testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto.” (Apo. 1:1,2).
Com a ajuda de Deus, planeámos apresentar um breve panorama sobre a Tribulação futura. O propósito deste estudo é dissipar a noção de que a Igreja, o Corpo de Cristo, é tema nos primeiros quatro capítulos do Livro do Apocalipse. Também exploraremos os eventos futuros do dia do Senhor a fim de aumentarmos mais a nossa apreciação da graça de Deus. Uma compreensão mais completa destes assuntos levar-nos-á a dobrar os nossos joelhos em adoração humilde Àquele que nos prometeu livrar da ira futura (I Tes. 5:9).
A maior parte da Cristandade tem o Livro do Apocalipse como um livro selado que não pode ser interpretado com exactidão, devido à natureza das numerosas visões e linguagem simbólica. Como consequência, os que desejam estudar este registo bíblico ficam desencorajados de o fazer uma vez que não pode ser compreendido. É claro que isto é um raciocínio deficiente porque o primeiro versículo do registo ensina o contrário:
“Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo” (Apo. 1:1).
Isto é a revelação (Gr. apokalupsis), o desvendar, o desvelar de Jesus Cristo segundo a profecia. Ao contrário dos Quatro Evangelhos onde Cristo é retratado como o humilde servo sofredor, Ele aqui é apresentado como o Juiz de toda a terra, preparado para derramar a Sua ira sobre os Seus inimigos. Esta é a revelação que foi mostrada aos Seus servos, que brevemente devem acontecer. Como iremos ver, João dedicará atenção a este tema ao longo do livro.
Certamente que esta revelação deve ser distinguida da que Paulo recebeu. Ele diz a respeito do seu evangelho: “Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo” (Gál. 1:12). A revelação (Gr. apokalupsis) dada ao Apóstolo Paulo revela Cristo segundo o Mistério, que tem a ver com a nossa exaltação com Ele nos lugares celestiais. Hoje conhecemos Cristo como o Deus de toda a graça que declarou um cessar-fogo a este mundo que O rejeitou. Como resultado, está a ser oferecida uma amnistia a todos os que confiam n’Ele como seu Salvador. Mas a declaração de graça e paz da parte de Deus em breve dará lugar a uma declaração de guerra, como o Livro do Apocalipse apresenta claramente. O que Deus separou, não o ajunte o homem; por conseguinte, é essencial que as revelações de Cristo, de Paulo e de João, não sejam misturadas.
TRÊS CHAVES IMPORTANTES
Uma chave dá acesso, se for a chave certa! O mesmo é verdade com as coisas espirituais. Há três chaves importantes que abrem as complexidades do Livro do Apocalipse. Primeira chave: é essencial ter um bom conhecimento das Escrituras proféticas, que revelam e aclaram o propósito de Deus para a terra. O Livro do Apocalipse é meramente uma continuação e desenvolvimento ulterior da profecia. Assim, “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia” (Apo. 1:3).
Tem sido dito correctamente que os frutos do Apocalipse são encontrados nas raízes da profecia. Nós cremos que o melhor comentário à Bíblia é a própria Bíblia. As Escrituras interpretam-se a si mesmas se as deixarmos na sua moldura natural. É interessante que a maioria do simbolismo que tem sido pedra de tropeço para muitos no Livro do Apocalipse seja explicado noutras porções da Palavra de Deus. Por vezes é definido no próprio livro. Por exemplo, João viu o Filho do Homem no meio de sete castiçais de ouro, segurando sete estrelas na Sua mão direita. Graças a Deus não somos deixados entregues à nossa própria imaginação quanto à interpretação correcta. Os sete castiçais de ouro são sete igrejas na Ásia e as sete estrelas são sete anjos (Gr. aggelos) ou mensageiros destas sete assembleias (Apo. 1:20). Como podes ver, o simbolismo no livro abre mão de uma interpretação literal quando comparamos coisas espirituais com coisas espirituais.
O Livro do Apocalipse desempenha um papel muito importante na profecia porque nos dá uma ordem cronológica dos eventos futuros, que não se encontra no Velho Testamento. João, sob a direcção do Espírito, reúne todas as profecias do Velho Testamento referentes às coisas futuras e coloca-as numa sequência temporal, revelando ao leitor quando transpirará cada evento profético. Ele dá-nos então elos de ligação nunca antes revelados. Por exemplo, nós sabemos que o reino foi predito pelo profeta, mas João é o primeiro a revelar que a sua duração será de 1.000 anos (Apo. 20:4).
Embora João divague ocasionalmente, os capítulos 1 a 10 dirigem-se antes de tudo aos primeiros 3½ anos da Angústia para Jacob. Com tantos elementos a serem revelados no meio do período da Tribulação ele passa a maior parte de quatro capítulos (11,12,13,14) a descrever a abominação da desolação. Nos capítulos 15 a 19 João trata intensivamente com os horrores da Grande Tribulação, que acaba com a Segunda Vinda de Cristo. Depois, no capítulo 20 o apóstolo remove dramaticamente a cortina do juízo final, a que se segue o estado eterno na terra, nos capítulos 21 e 22.
Segunda chave: temos de também ter uma compreensão adequada do apostolado e mensagem de Paulo. Falhar nisto só servirá para frustrar a graça de Deus. O Mistério está claramente desligado das profecias futuras sobre o futuro dia do Senhor. Nós estamos a viver na era da graça não profetizada por Deus. É por isso que todas as tentativas para se predizer o Arrebatamento da Igreja tomando por base a linha de tempo da profecia tem falhado.
Provavelmente alguns lerão a próxima declaração com incredulidade, mas no entanto é verídica, se compreendemos o Evangelho de Paulo – nenhuma profecia do Velho Testamento está a ser cumprida hoje. Nós compreendemos que o mundo se dirige nessa direcção e que se renderá ao cenário que está a ser preparado. Mas a sabedoria diz que temos de parar aqui pela seguinte razão: Após o Arrebatamento, logo que o relógio profético recomeçar a trabalhar, as profecias cumprir-se-ão numa sucessão rápida, visto que estão todas inter-relacionadas umas com as outras. Por exemplo, a profecia de que o Anticristo se assentará no Templo e se declarará Deus está dependente do cumprimento de uma profecia precedente que diz que o Templo será reedificado.
Uma vez que estamos livres da ira futura, tornou-se desnecessário que Paulo instruísse os membros do Corpo de Cristo sobre a atenção que estes deveriam dar aos avisos de Mateus 24. O Arrebatamento é um evento não profetizado; portanto, não há sinais, tempos ou estações que precedam o retorno iminente do Senhor para a Igreja. Não admira o apóstolo dizer aos Tessalonicenses, “consolai-vos uns aos outros com estas palavras”. Ele nunca teria feito esta declaração se tivéssemos que passar por alguma parte da Tribulação futura. Isto ajuda a clarificar porque é que o Corpo de Cristo nunca é mencionado no Livro do Apocalipse.
Terceira chave: temos de nos certificar do método correcto de interpretação. Teologicamente, a Interpretação Preterista diz que o Livro do Apocalipse refere-se especificamente aos problemas e perseguições da igreja primitiva, que existia no tempo em que foi escrito. Por outras palavras, a profecia já foi completamente cumprida. Esta interpretação desafia a razão, a lógica, e mais importante ainda, qualquer evidência credível.
A Interpretação Histórica diz que o registo descreve simbolicamente a sequência cronológica dos eventos históricos da Igreja. Uma forma modificada desta posição declara que as sete igrejas na Ásia representam as sete fases históricas da Igreja, o Corpo de Cristo. Segundo esta interpretação, estamos actualmente a viver na era de Laodiceia. Apesar desta ser talvez a posição mais popular entre os dispensacionalistas, também deixa muito a desejar. O problema aqui é que nos é deixada a interpretação do homem sobre a história da Igreja, que às vezes é questionável. Nós preferimos deixar a autoridade final sobre tais assuntos com as próprias Escrituras.
Nós cremos que a Interpretação Futurista se ajusta melhor ao registo que nos é dado pelo Apóstolo João. Esta interpretação diz que todo o Livro do Apocalipse é futurista. Uma coisa a favor desta posição é tanto a história bíblica como as Escrituras parecem claramente sustentá-la. É geralmente aceite que o Apóstolo João escreveu o Livro do Apocalipse por volta do ano 95 A.D.. Ussher, que desenvolveu o sistema de datação com o seu nome, concorda. Ele foi um dos primeiros a datar os livros das Sagradas Escrituras ao comparar meticulosamente tanto os documentos seculares como os bíblicos que estavam à sua disposição.
Na altura que João escreveu o Apocalipse, a bênção de Deus tinha sido completamente removida de Israel. O Templo e Jerusalém já tinham sido destruídos por Tito e o sistema sacrificial jazia em ruínas. Tanto Paulo como Pedro tinham sofrido o martírio, e a maioria dos salvos em Pentecostes sob o Evangelho do Reino estavam agora com o Senhor. Isto levanta a questão: A quem estava João a escrever? Apesar de sabermos que a Igreja, o Corpo de Cristo, era o meio através do qual Deus estava a canalizar a Sua bênção na altura, sabemos que João foi dirigido pelo Espírito a confinar o seu ministério à circuncisão (Israel) (Gál. 2:9).
Creiamos que o Livro do Apocalipse tenha sido escrito numa data mais anterior ou posterior é realmente controverso, se compreendemos que o escrito é totalmente futurista. João teria naturalmente passado o livro aos poucos santos do reino que permaneciam nos seus dias de modo a este poder ser adicionado ao cânone das Escrituras. Contudo isto não diminui o facto de que a principal força da escrita é a futura nação de Israel.
Os que podem ter reservas sobre João se dirigir à futura nação de Israel devem lembrar-se que o mesmo é verdadeiro de muitas profecias do Velho testamento relativamente à Tribulação futura. De facto, quase metade do Livro de Daniel cai nesta mesma categoria. Assim então, as sete igrejas a quem João está a escrever são sete futuras assembleias Judaicas localizadas na Ásia Menor (Apo. 1:11). Os teólogos que rejeitam a interpretação futurista têm reconhecido alguns dos casos espinhosos associados ao ensino de que João estava a escrever a sete igrejas dos seus dias. Como consequência, eles foram forçados a espiritualizar estas igrejas, interpretando-as como sete fases da história da Igreja. Uma vez mais, devemos tomar sempre uma interpretação literal da Palavra de Deus a menos que o contexto exija algo diferente. Certamente que aqui há poucas dúvidas de que estas assembleias são literalmente assembleias do Reino.
UMA JORNADA ATRAVÉS DO TEMPO
O mundo teve sempre um desejo insaciável de conhecer o futuro. Até Hollywood tem procurado capitalizar isto com filmes como De Regresso ao Futuro! Com uma natureza decaída, podes ter a certeza de que se o homem pudesse predizer o futuro seria para maus propósitos. Graças a Deus que Ele tem escondido isto ao homem, com a excepção do que Ele escolheu revelar-nos no respeitante a estas coisas que estão para acontecer. Só a Palavra de Deus faz um relato exacto dos eventos futuros – todos os outros meios são artifícios e artimanhas de Satanás.
No Livro do Apocalipse Cristo é o alfa e o ómega (Apo. 1:8). Alfa e Ómega são a primeira e última letra do alfabeto Grego. Por conseguinte Cristo é o começo e o fim. Ele conhece o fim desde o começo porque Ele tem planeado e designado todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade. Isto é, em essência, o próprio fundamento da profecia. Como disse um distinto ensinador da Bíblia: “O que é a profecia, senão a história escrita antecipadamente?”
Embora viajar no tempo seja impossível para o homem, nada é impossível para Deus. Ele é eterno, tendo todo o conhecimento, todo o poder, e estando presente em toda a parte. Do mesmo modo que Enoque e Filipe foram transportados para outro lugar num momento de tempo, o Apóstolo João foi levado no Espírito ao futuro dia do Senhor (Actos 8:39,40 cf. Heb. 11:5). E tu que pensavas que as tuas férias do Verão passado tinham sido uma viagem inesquecível! Isto soa forçado? Não para o crente que vê com os olhos da fé! O que dizem as Escrituras?
“Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo. Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta” (Rev. 1:9,10).
Este é João, o amado, que reclinou a sua cabeça no seio de Jesus na Última Ceia. Ele era um dos doze apóstolos do reino, e tanto quanto sabemos ele era o último membro sobrevivente do grupo quando escreveu estas palavras. Ele tinha sido deportado para a Ilha de Patmos pelo Imperador Romano Domitian I.[1] A deportação significava uma sentença de morte para o apóstolo idoso, mas Deus converteu o mau intento numa revelação inesquecível do Seu querido Filho.
Como um Hebreu dirigindo-se a Hebreus, João identifica-se como seu parente segundo a carne. Ele era seu irmão e companheiro em tempos atribulados. Se consultarmos aqui o original sabemos que o artigo definido precede o substantivo, aflição (tribulação); como consequência João foi seu companheiro durante “os” sete anos de Tribulação e o Milénio a seguir.
Estas são as coisas que o versículo 1 diz “que brevemente devem acontecer”. A referência é àqueles que estarão vivos naquele dia. Isto é-nos confirmado pela declaração seguinte do apóstolo: “Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor”. A tradição ensina que o Dia do Senhor é o Domingo, que é o dia em que os Cristãos adoram. Contudo, isto é estranho às Escrituras. O dia do Senhor é uma referência clara ao período de tempo extenso que inclui: sete anos de tribulação, a Segunda Vinda de Cristo, a prisão de Satanás no abismo, o juízo de Israel e das nações, o reino Milenar de Cristo, a batalha de Gog e Magogue, e o Juízo do Grande Trono Branco. Quando João foi transportado a este dia futuro ele ficou, por assim dizer, sentado no balcão, e registou todos os eventos que se desenrolaram diante dos seus próprios olhos.
“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo” (Apo. 1:3).
Uma bênção especial está reservada para os que vivendo naqueles dias, lerem, ouvirem esta visão profética pregada, e obedecerem às palavras desta revelação. Vendo que há um número de profecias chave que têm de ser cumpridas mesmo no começo da Tribulação, é impossível a qualquer crente do passado ou do presente “guardar” aquelas coisas registadas no Livro do Apocalipse. Uma dessas profecias tem a ver com o ministério das duas testemunhas ...



